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As tropas de Santarém vêm aí numa "chamite"

por Redacção Soberania em Abril 29,2010

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Noite cálida de 24 de Abril. Subiu a escadaria do Clube em passo estugado, de cravo vermelho na lapela o Pelé Bancário, a clamar:
“Vamos festejar o glorioso!”.
“Pois, viva o Benfica! Isto está no papo!”, disse com entusiasmo o Paulo Roçado da Mata, a sacudir os braços, freneticamente.
“Qual Benfica, isso é um clube de terceira, eu estou a falar do glorioso, mas é do 25 de Abril!”.
O Paulo Roçado da Mata, mostrou-se contrito e retrucou:
“Desculpe, mas eu não sabia que havia outro glorioso”. E concluiu em solilóquio: “Ainda vem aí alguma chuvada de granizo, que até o cravo murcha!”.
Entraram todos os membros,  ou deputados, no salão nobre decorado com grande profusão de flores, em que predominavam os cravos cor de rosa e alguns vermelhos e malmequeres na botoeira dos casacos da oposição.
Realmente, a festa começou na véspera, com um programa bem alinhado, para entrar pela noite dentro com actos revivalistas no exterior, a lembrar os passos da revolução, desde a saída das tropas de Santarém até à rendição do governo. O Celestino de Almada abriu a sessão, afirmando, com alguma solenidade:
“Nós temos que nos entreter até à meia-noite, para irmos lá para fora assistir à encenação programada. Vou dar a palavra aos representantes das várias tendências e espero que estiquem os discursos para passar o tempo, até cantarmos cá dentro “a gaivota.”
Começou por dar a palavra ao Tampos de Espinhel, que levava no braço um cesto cheio de cravos vermelhos que ia distribuindo pelos presentes e disse em tom reivindicativo e vigoroso:
“A minha freguesia é proscrita, é a que mais impostos paga e é a que menos recebe, nem os jacintos nos tiram”.
Seguiram-se mais discursos, mais ou menos assépticos, da Elanice Neta, da Elisa Chávena e por fim o Paulo Roçado da Mata, que fez um discurso mais eloquente do que os que ficaram calados:
“Portugal só vence a crise se o Benfica for campeão. Rezem para que aconteça, porque se não acontecer, há seis milhões de descoroçoados, que não têm ânimo para trabalhar e produzir riqueza, é um caos”.
O Silva Frango interrompeu ruidosamente da galeria e disse indignado: “O Benfica é um clube de bairro, seis milhões tem o Sporting, tem tido é azar...”.
Faltava ainda uma hora para a meia-noite, não havia mais oradores, para fazer horas tiveram que começar a cantar canções revolucionárias, como “a gaivota”, “pisca-pisca”, “apita o comboio”, “eu tenho dois amores” e outras.
À meia-noite, como estava previsto, saíram para a Praça e aí o Alcindo Tenor, acompanhado à viola pelo Fernando Balantaines e pelo coro misto de três naipes dos comerciantes da baixa, em que sobressaía a voz de soprano da Manuela dos Cacos, começou a cantar a “Grândola Vila Morena”.
Terminada a “Grândola”, o speacker Deniz de Bouquets anunciou: “Depois deste intróito, vêm aí as tropas de Santarém numa “chaimite”.
Nesse momento, vindo da Rua da Venda Nova, entrou na Praça um tractor conduzido pelo Raúl do Apito, vestido de capitão, a puxar o canhão da rotunda ainda de cano retorcido, para não aleijar ninguém.
O speacker, continuou: “E agora vai entrar a cavalaria e o negociador, para a destituição do governo”.
Entrou, então, a galope o cavalo do Custódio da Borralha a puxar a caleche onde vinha em pé, fantasiado de Spínola,  envergando uma farda alugada de general, com um óculo no olho esquerdo, o Manuel Engenheiro.
Ouviu-se então  uma voz vinda da multidão. “Com este não se chega a negociação nenhuma!”.
E, à cautela, o Gil Pedalais, saiu sorrateiramente da cena...

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