Nas sandálias do pescador
Apesar do “simplex”, a política que está no poder tem cada vez mais assessores nos Ministérios, Institutos, Empresas Públicas, Comissões Regionais, Governos Civis, Câmaras e Assembleias Municipais e Juntas de Freguesia. À mesa do orçamento e à volta da hierarquia, preparam relatórios, esboçam diagnósticos, aconselham o chefe. Fazem a ligação directa à organização partidária - aos da cor e aos da outra cor - controlam por inteiro o site da casa e procuram ligação privilegiada com os jornais e televisões. Mandam emissários às reuniões públicas, contratam o palanque e a dança para o palanque. Convidam as personalidades, reservam-lhe os lugares, fazem a vénia. Em tempo eleitoral a febre vêm-lhes ao de cima: mapa dos contactos sempre à mão, as zonas seguras e duvidosas, os telhados de vidro do vizinho, as listas dos candidatos, os lugares de influência, sem esquecer os primos Miguéis da vida. A sondagem manda afixar o cartaz na rotunda e anunciar em letras gordas e pretas, a torneira da água, a ligação da luz, o tratamento dos esgotos, o combate ao incêndio, a criação do emprego, a entrega do diploma e o sorriso da felicidade. Da esquerda à direita e ao centro a “política à portuguesa“ está agora cercada por esta malha que orienta o político, prepara o candidato, escreve o slogan, negoceia o voto até à urna. Enredada nesta teia, a política e os princípios caiem como a areia da Costa Nova por entre os dedos, sem tempo para “descer do palácio, sair à rua e caminhar pela cidade da alma“, como escrevia Morris West, nas “Sandálias do Pescador”. Ensina a História que a política se renova, mas que isso demora o seu tempo. E a esperança é a última coisa a morrer, não é Beatriz? n JNS
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