O gesto obsceno...
É bem possível que muitos dos que leram alguns nacos da prosa queiroziana já não se recordem, ou até mesmo desconheçam, um dos mais famosos contos que o genial autor d´Os Maias nos deixou, conto esse que retratava (e retratará para sempre), com a sua inexcedível ironia, um provinciano serão passado numa burguesa casa das Beiras (o chamado Portugal profundo…), aí por volta dos idos de meados do século XVlll. Consumida a janta, beberricado o velho Porto, eis que chegara o momento da leitura da Gazeta das Beiras - a publicação dita «de referência» daquela época já bem longínqua. Dessa leitura se encarregava normalmente o «senhor morgado». A quem toda a família escutava interessadamente. No jornal, abundavam as calamidades. Era uma dessas semanas também em que, pela violência da natureza e pela cólera dos homens, se desencadeia o mal sobre a terra. As catástrofes eram lidas lentamente com a serenidade que convinha (…) e ninguém sequer se interessou pela imensa desventura que atingira Java, tão remota, tão vaga no mapa… Java?! Onde seria Java?... Depois, mais perto, na Hungria, um rio transbordara, destruindo tudo por onde a torrente passara. Alguém murmurou através de um lânguido bocejo: Que desgraça! Na Bélgica, uma greve provocara feridos e a morte de duas crianças. Mas nenhum comentário se ouvira. Então, aqui e além, no aconchego da saleta ouviram-se vozes já interessadas. Exclamaram brandamente: Que horror! Estas greves… pobre gente. Ainda mais perto, no Sul de França, o descarrilamento de um trem provocara algumas mortes e meia dúzia de feridos ligeiros. Uma curta emoção percorrera os presentes, desolados com o sucedido a dois passos da fronteira portuguesa. Santo Deus!... Todos se ergueram num sobressalto. Mas não por causa do descarrilamento… Era um dos pés da Dona Luíza que se desmanchara, causando alarido e alvoroço (…). Parecia o fim do mundo. Dois mil javaneses sepultados, a Hungria inundada, comboios descarrilados, crianças esmagadas, etc., etc., tudo de mal acontecera mas o que na realidade transtornara tudo e todos fora o pé desmanchado da Luízinha Carneiro, que agitara os corações daqueles respeitáveis burguses. Pudera. Entre os milhares de vítimas distantes e a proximidade da Luízinha de pé quebrado não havia comparação… E eu, ao dar-me conta da realidade recordada por Eça de Queiroz, lembrei-me de vós, funambulos da sociedade, que andais por aí escarnecendo da verdade… Ainda bem, recentemente um gesto obsceno de um membro do governo português foi considerado a notícia mais importante de toda imprensa portuguesa. Não há dúvida que a importância dos acontecimentos mede-se pela proximidade das situações.
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