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Futebol: O cancro tinha metástases tão profundas que o futebol não voltará a ser impoluto
Desengane-se quem estiver convencido que a explosão do caso que ficou conhecido como «Apito Dourado» vai trazer mudanças imediatas e visíveis ao futebol em Portugal. O cancro era enorme e tinha metástases demasiado profundas e espalhadas. Por via da irresponsabilidade e da desonestidade daqueles a quem chamarei «a velha escola do dirigismo desportivo», o futebol nacional está tão indelevelmente marcado na sua seriedade que serão preciso gerações para que ele volte a ser impoluto. Não creiam que o escrevo de ânimo leve. Não faz o meu estilo e há provas concretas que sustentam esta minha teoria.
PÂNTANO INFECTO
Tenho vindo a apresentar nas páginas de «SP» uma série de artigos que desvendam, com base nos milhares de páginas que compõem o processo do «Apito Dourado», o despudor como certos personagens se moviam tranquila e impunemente nesse pântano infecto e nauseabundo de tráfico de influências, de nepotismo e corrupção. E não, nada disto é um exagero de adjectivação. Os exemplos estão aí para que cada um possa aquilatar da autenticidade da terminologia aplicada. Na passada semana, José Luís Oliveira, presidente do Gondomar, foi punido pela Comissão de Disciplina da Liga Portuguesa de Futebol Profissional com 9 anos de suspensão. Para quem não saiba, José Luís Oliveira, que também chegou a ser vice-presidente da Câmara Municipal de Gondomar, num daqueles tiques promíscuos de que o nosso futebol e o nosso poder autárquico costumam ser pródigos (por alguma razão, Elisa Ferreira, candidata pelo PS à Câmara Municipal do Porto, fez questão de ter na primeira fila dos seus apoiantes, em lugar de destaque, o presidente do FC Porto, esse mesmo que cumpre actualmente uma pena de suspensão por corrupção de equipa de arbitragem na forma tentada) foi um dos principais responsáveis pelo despoletar de todo o caso «Apito Dourado», já lá vão, imagine-se!, nove anos. De facto, foi a partir da sua tentativa de aliciamento de um árbitro, de nome Rui Mendes, que o Ministério Público e a Polícia Judiciária se lançaram no encalço de uma cáfila de corruptos que enxameavam (e enxameiam) o futebol em Portugal. Mas essa história ficará para outra oportunidade. Os episódios multiplicam-se. A pouca vergonha fica às escancaras. Escreverei aqui, numa próxima oportunidade, a forma como Pedro Henriques (um dos árbitros que continua serenamente no activo e apitar jogos da maior importância) era o árbitro da preferência do presidente do FC Porto para dirigir a final da Taça de 2003, entre o FC Porto e o U. Leiria, e como se moveram influências ao mais alto nível para que ele pudesse estar no Jamor, respeitando a vontade de quem, de facto, mandava nos dirigentes da arbitragem em Portugal.
FAZER O JEITO…
No dia 4 de Agosto de 2003, o árbitro Paulo Costa (PC) liga ao presidente do Conselho de Arbitragem, Pinto de Sousa (PS). A Judiciária recolheu toda a conversa. Por coincidência, nesse preciso momento, Pinto de Sousa encontrava-se na companhia do seu amigo Pinto da Costa, presidente do FC Porto. O desenrolar da conversa é bem esclarecedor acerca da promiscuidade entre árbitros e dirigentes. Pinto da Costa oferece a Paulo Costa um dos jogos particulares do FCP, com o Groningen, da Holanda, para o árbitro poder rodar e adquirir ritmo. Pinto de Sousa não só concorda com tudo, como faz questão de ligar para o Conselho de Arbitragem da FPF a mudar as nomeações e a dar ao árbitro Paulo Costa o jogo que o presidente do FC Porto lhe ofereceu. O FC Porto ganhou o jogo por 1-0, encontro disputado no campo do Rio Ave. Reparem nos termos da amena cavaqueira:
PS: Senhor Paulo Costa, está bom? PC: Está bom? Bem disposto? (Pinto da Costa em fundo: «Brasil… especial… só apitar a favor do Porto…») PS: Está aqui o senhor Pinto da Costa a dizer que trouxe-lhe agora um apito do Brasil. PC: Ai trouxe-me? PS : … e que é um apito especial porque só marca faltas a favor dele. PC: Ah! Pensei que… PS: Ah! Ah! Ah! PC : … só marcava em função do tom de azul… (Pinto da Costa em fundo: «… mas pela cor… não assobia…») PC: Está bem, está bem… Dê-lhe os meus cumprimentos! PS: «Cumprimentos/Igualmente». PC: Está bem. Olhe, senhor presidente, de qualquer das formas há uma coisa que eu quero pedir-lhe… (Pinto da Costa em fundo: «Espero que para o ano seja o 1º. Que não haja favores.») PC: Ah… Está bem. PS: Shhhhhhhhh…. Ouviu? Ele já ouviu. PC: Também espero! Ouvi, ouvi. Também espero, também espero! Olhe, entretanto… eu não estou muito bem em termos de jogo… PS: Porquê? PC: Porque… porque não estou muito bem em termos de condição física. Uma coisa é treinar, outra é fazer o pára arranca do jogo! Portanto… PS: Sim… PC: Se houver… e quarta-feira tenho um jogo, não é? A final… PS: Sim, sim… PC : … se houver um jogo este fim de semana que ainda não tenha árbitro não se esqueça de mim…, por favor. Está bem? PS: Está! Espere aí. Dei agora um jogo ao Rui Costa, passa já para si! PC: Então, se calhar… PS: Que é um Rio Ave qualquer coisa… um jogo simples, pá… PC: É, se calhar… PS: Porque você tem jogo quando? PC: Eu tenho… eu vou ter um jogo… tenho a tal final da Intertoto na outra quarta-feira, salvo erro é dia 12… PS: Ah! Dia 12 de Agosto, não é? PC: É. PS: Então convinha ser agora, assim um ou dois, não? PC: Era… não, vou fazer um na próxima quarta, convinha-me fazer um no fim de semana… PS: Ah, então… PC: … porque eu, em Guimarães, senti-me mal… PS : … de hoje, de ontem a oito dias, não é? PC: Exactamente! Lá para dia 9. (Pinto da Costa em fundo: «Pergunta se ele quer apitar o Porto na quarta-feira») PS: Não quer fazer o Porto? Quarta-feira? Que jogo é? (Resposta imperceptível de Pinto da Costa). PC: Desculpe? PS: Mas ele tem… mas… mas o Porto tem um jogo na quarta-feira, quarta- -feira tem você jogo? (Comentário imperceptível em fundo de Pinto da Costa). PC: Eu? Na próxima qua… na próxima quarta? PS: Sim. Tem jogo, não? PC: Na próxima quarta tenho um… o Taipas com o não sei quem… PS: O Taipas qualquer coisa… então eu tiro-o do Taipas qualquer coisa e vai fazer o Futebol Clube do Porto com um clube estrangeiro… (Pinto da Costa em fundo: «É… inglês ou holandês»). PS: Dá-lhe mais jeito, ou não? PC: Na próxima quarta? Dá. Dá outro ritmo. É lógico! E assim, entre amigos, lá se fez o jeito a um árbitro. Pouco importa se o jogo era «a feijões» ou não. Importa que vá ficando tudo numa paz do Senhor e que as comadres continuem a dar-se como a mão esquerda e a direita. Paulo Costa está no fim da carreira. Ainda bem, digo eu. Este género de árbitros que se sujeitam a conluios com dirigentes estarão sempre a mais seja em que futebol for. A sua despedida deu-se no Estádio Nacional, na última final da Taça de Portugal, entre o FC Porto e o Paços de Ferreira. Pôde assim reencontrar o presidente do FC Porto com o qual tem, pelos vistos, uma relação de franca estima. E apitou a final dos «caras de pau»: aquela em que o Presidente da República, sem respeito pelo povo que o elegeu, deixou que se sentasse a seu lado um dirigente suspenso por corrupção de equipa de arbitragem na forma tentada e que, por via desse castigo, não poderia representar o clube a que preside. Mas, neste país que o mar não quer, como dizia Ruy Belo, a vergonha nunca esteve na lista de prioridades dos nossos políticos.
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