Trânsito na cidade: Carta Aberta ao presidente da Câmara de Lisboa
EXCELÊNCIA Foi no 2º. ano da Faculdade Direito que tomei conhecimento - seguindo uma velha tradição - que as duas maiores e mais importantes autarquias do país (Lisboa e Porto) tinham jus a tratamento honorífico idêntico ao do Presidente da República e membros do Governo. Assim se procurava distinguir as duas cidades e os respectivos presidentes. Embora já não estejamos no tempo dos «salamaleques» e se verifique uma acentuada tendência para a simplificação burocrática e protocolar, nem por isso me pareceu descabido, ou ridículo, manter o costume da mencionada honraria, dirigindo-me nos referidos termos aos autarcas de ambas as cidades, ainda que, neste caso, o destinatário seja o de Lisboa, de onde sou natural e em cuja área metropolitana resido. Vem esta lenga-lenga a propósito de um recado (fico-me apenas por um…) que desejaria enviar ao dr. António Costa, aquele dos candidatos alfacinhas que maiores probabilidades parece ter de ser eleito. (com Pedro Santana Lopes a concorrer nunca se sabe…). Vitorino Nemésio (se bem me lembro) começava as crónicas televisivas com que nos deliciava, exactamente assim: «Se bem me lembro…». Pois também me lembro que naqueles tempos, não tão distantes assim, o trânsito lisboeta já poderia ser considerado como uma das maiores calamidades, se não mesmo já a maior, que atormentavam os lisboetas. Para fazer face ao que viria a constituir um autêntico flagelo, o presidente da edilidade de então (personagem cujo nome não tenho presente e que tanto poderia ser o coronel x como o general y…, desde que fosse um fardado). Era a época em que a tropa constituía uma profissão para todos os gostos e eventualidades, menos para fazer guerra e, desse modo, arriscar a vida… Foi nesse espírito mais ou menos militarista que o presidente da Câmara nomeou o major (tinha de ser…) Maia Loureiro para todo-poderoso comandante da brigada de trânsito da PSP de Lisboa, com a missão de disciplinar o tráfego e pôr ordem nas ruas tornadas intransitáveis. Há que reconhecer que o major era um sujeito que parecia fadado para o cargo. Simultaneamente autoritário e simpático, conhecedor do ofício, percorria as principais artérias da cidade como suas fossem, dando ordens e apitando a torto e a direito, multando, invectivando (mas sem ultrapassar a devida cortesia, fosse qual fosse o condutor). Homem carismático, enérgico e competente, circulava diariamente pelos locais mais congestionados, impondo respeito e fazendo circular o fluxo rodoviário. E todos lhe obedeciam e o temiam. Contava-se que, uma tarde, entrou em diálogo áspero com determinado condutor, junto ao Marquês de Pombal. Desentendidos quanto a quem teria prioridade de passagem. «O senhor major sabe perfeitamente que sou eu», resmungou o «outro». Maia Loureiro, que ignorava completamente a identidade do «antagonista», perfilou-se, fez a devida continência e retorquiu: «Pois seja V.Excia quem seja, ou fosse quem fosse, quem manda aqui sou eu e o principal responsável pelo trânsito em Lisboa também». - «Pois saiba o senhor comandante que eu sou o presidente do Supremo Tribunal de justiça». « «Aqui está a diferença», disse Maia Loureiro. «V. Excia poderá julgar toda a gente mas aqui, no trânsito, quem manda sou eu. De resto V. Excia conhece-me perfeitamente, mesmo de nome, enquanto eu não tenho a honra de conhecer o seu». A experiência deu tão bons resultados que, chegado o momento da reforma, Maia Loureiro foi substituído por outro major (como poderia ser diferentemente?). E o sucessor revelou-se perfeitamente à altura do sucedido. Foi o major Fernando Baptista da Silva, aliás um querido amigo meu. Quem sabe se não seria o momento oportuno do novo presidente da Câmara de Lisboa descobrir e nomear um novo Comandante de Trânsito na directa dependência do presidente da edilidade? O tráfego de uma grande metrópole é coisa séria e complexa demais para ser entregue a um qualquer curioso ou simples vereador. Experimente, sr. presidente. Descubra um novo maia Loureiro ou outro Baptista da Silva e verá que não se vai arrepender. Com os melhores cumprimentos, n MANUEL JOSÉ HOMEM DE MELLO Director Honorário SP
- APOSTILA: Ao recordar esses tempos, lembrei-me que eu próprio estive para fazer a experiência que refiro. Em dado momento, o então ministro das Obras Públicas, meu dilecto amigo, pretendeu nomear-me presidente da Câmara de Lisboa. Eu aceitaria de bom grado, tendo posto o ministro ao corrente daquela minha ideia. Mas ficou tudo em águas de bacalhau por que o doutor Marcello Caetano lhe disse que me preferia manter em S. Bento. Mandava quem podia… Caetano preferiu-me como palrador a agente de tráfego. n mjhm
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