Clube da Venda Nova
Com a aproximação das eleições autárquicas organizam-se meetings com a vestimenta das reuniões de amigos e conhecidos, mas que se transformam em reuniões de propaganda e catequese política. Num jantar organizado por anónimo identificado, para degustação de um arroz de lampreia, sentaram-se à mesa pessoas com alguma preponderância política social e económica. A certa altura, o conhecido argentário e orador Eleutério Costa Nova, cujas palavras, em muitos encontros, são tanto mais apreciadas quanto mais bem embrulhadas em cheques, levantou-se e disse, com gravidade: «Eu vou dar vinte e cinco mil euros para a campanha eleitoral do Castro Agridoce!». Esta afirmação causou pasmo em todos e um misto de alegria na maioria dos presentes, especialmente nos apoiantes da mesma candidatura. «Muito bem!», gritou o Gil Abredepois, batendo as palmas com tal violência, que uma côdea de broa da Veiga que tinha nas mãos, lhe furou o dedo mindinho! Depois levantou-se, atou o dedo com um guardanapo e continuou, mesureiro, arqueando o dorso, numa vénia: «Muito obrigado, nem sabemos como podemos mostrar o reconhecimento por tanta generosidade. Afinal o senhor é um bom homem, colaborante, bons sentimentos e não um ricaço endurecido e egoísta... é um grande homem». «Espere aí….», interrompeu o Eleutério, estendendo o braço e abrindo a mão em palma. «Eu sei que com este dinheiro vocês podem comprar esferográficas, barretes e aventais que dão para ganhar as eleições. Porque isso é barato e o povo gosta e cada barrete, cada voto. Mas... - e ouviu-se um coro de murmúrios de ansiedade na mesa - mas, exijo condições para dar o dinheiro, condições essas que têm que ficar escritas e ser cumpridas, se não não dou dinheiro nenhum!». Fez-se silêncio, o orador puxou as calças para cima dando um saltinho e continuou: «Exijo que me deixem colocar um andar em cima da casa do engenheiro, que me alcatroem o kiwizal, mesmo que ninguém saiba quem foi, como na Rua da Leopoldina, que me dêem uma comenda... e ainda...!». «Não peça assim tanto, se não tem que dobrar a parada!», interrompeu o Zé Carlos Flippers. «Bem vistas as coisas, nós podemos dar-lhe isso tudo, que o senhor merece», disse, com solenidade, o Gil Abredepois. «Pois …», continuou o Costa Nova. «Eu mereço isso, mas também exijo, e é o mais importante, que na lista para o Clube encabeçada pelo Agridoce, o número dois seja o Elói Barba Negra. E têm que remediar tudo o que fizeram de mal, para me contrariarem, devolverem-me o dinheiro das multas e das custas dos processos...». O Gil Abredepois mexeu-se na cadeira, fez uma cara de enfado, descoroçoado, e disse a meia voz: «Assim já não queremos nada, ainda perdíamos dinheiro!». O Poeta Catula, ao saber deste episódio, escreveu e musicou este poema, que cantou acompanhado à braguesa: O Eleutério Costa Nova Fez uma oferta tamanha De dar dinheiro pr’á campanha Onde o Agridoce à primeiro. Mas impôs logo uma regra: Que no segundo lugar Esteja o Elói Barba Negra. E com brilho e esplendor Se faça uma festa a sério, Se ponha mais uma andar na Casa do Engenheiro E se faça o Eleutério Comendador!
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