Aurélio Gomes Ferreira nasceu no Cândam a 20 de Março de 1930 (79 anos) e cedo se deixou enamorar pelo ramo industrial, muito embora o seu trajecto de vida esteja também associado à política.
Ergueu duas empresas com créditos firmados no panorama industrial português, foi vereador municipal (antes e depois da “Revolução dos Cravos”), impulsionador da criação da freguesia da Borralha e primeiro presidente da Junta. “Tive um trajecto industrial e político de que me orgulho”, revelou, na conversa com SP.
Poucos dias depois de entrar no ano 80 da sua existência, ficou a saber-se que vai integrar as listas do CDS--PP, em nono lugar, nas Eleições Europeias marcadas para o próximo dia 7 de Junho. “Devemos estar sempre disponíveis para ajudar nos tempos de dificuldade e sobressalto”, disse.
SOBERANIA DO POVO (SP): Que memórias é que guarda da sua infância?
AURÉLIO FERREIRA (AF): São memórias de que me recordo permanentemente. Memórias de tempos muito difíceis em que estava tudo por fazer. Tínhamos por missão tratar da vida de casa e das tarefas agrícolas, numa altura em que os campos de Águeda eram recheados de milho, onde as sachadeiras se reuniam para cantar, e em que os moliceiros chegavam ao Cândam e à Alhandra, descarregavam o sal e faziam a viagem de volta com cargas de madeira para as fábricas da Aleluia, em Aveiro. A madeira era o combustível que existia naquela altura para alimentar as caldeiras.
SP: Daí para cá, Águeda mudou muito...
AF: Águeda mudou tudo! A partir dos anos 40, processou-se uma autêntica revolução. A agricultura entrou em decadência e surgiu a indústria. Foi uma revolução que se manteve até aos dias de hoje.
SP: Foi por essa altura que começou a trilhar um longo percurso industrial...
AF: Havia que tomar um rumo e parecia-me que tinha alguma vocação para a indústria. A vida só podia ter êxito se houvesse alguma organização e aventurei-me nesta área.
SP: Deduz-se que os tempos iniciais tenham sido muito difíceis...
AF: Começar qualquer coisa é sempre difícil. Não havia a facilidade de se contrair empréstimos e tínhamos que ter algumas cautelas, para não sermos apanhados de surpresa na trajectória. Nessa altura, só para que tenha noção das dificuldades, as taxas de juro nos bancos eram de 10%!
SP: Mas valeu a pena?
AF: Acho que sim! Tem sido uma vida de muito trabalho e de canseiras. Mas quando se faz aquilo que se gosta e se segue uma trajectória correcta a vida torna-se sempre aliciante.
CANDIDATURA EUROPEIA
SP: A anunciada candidatura ao Parlamento Europeu é a cereja em cima do seu “bolo” político?
AF: Quero-lhe dizer que não estava nos meus planos reentrar na cena política. Depois de algumas hesitações, de muita reflexão e, até, de ter recusado o convite, decidi abraçar este desafio, porque acho que não devemos aceitar lugares só com o intuito materialista e nos devemos disponibilizar para os momentos difíceis como aqueles que atravessamos. Ou seja, aceitei o lugar para ajudar o partido a marcar uma posição nas eleições europeias. Talvez seja uma trajectória de fim de carreira, mas devemos estar sempre disponíveis para ajudar nos tempos de dificuldade e sobressalto.
SP: O que é necessário fazer?
AF: Primeiro, é necessário que os políticos façam uma reflexão em relação aquilo que inicialmente foi definido como sendo a União Europeia. E é importante que se definam acções consentâneas com a vida real das populações de cada Estado. Depois, cada grupo parlamentar de cada país tem que exercer a sua influência em relação às propostas que apresentar, na defesa do seu país. Estando lá, ou não, tentarei sensibilizar os eurodeputados do CDS para os problemas nacionais de que tenho conhecimento.
HOMENAGEM ROTÁRIA
SP: Como encara a homenagem que o Rotary lhe vai dispensar?
AF: Eu nunca me preocupei em enriquecer o meu currículo, à espera de homenagens. Entendo-a como um reconhecimento da minha trajectória profissional. Talvez por ter procurado, durante toda a vida, um rumo sem variações. E por ter tido sempre em conta que a indústria, de ontem e de hoje, será sempre a força da economia. Se não há emprego, não se ganha, se não se ganha, não se gasta!
SP: Está a caminho dos 80 anos. O que que é que lhe faltou fazer?
AF: Faltou-me tempo para fazer algumas coisas na área social. Tive um trajecto industrial e político de que me orgulho, mas gostava de ter tido mais tempo para as questões sociais. O problema é que as indústrias requerem imenso tempo e imaginação e qualquer desvio reflecte-se na vida das empresas. E eu procurei sempre um rumo que não prejudicasse a minha vida empresarial.
AURÉLIO FERREIRA
VEREADOR DE ANTES E DEPOIS
SP: A nível político municipal foi vereador e presidente da Junta de Freguesia da Borralha...
AF: Fui dos poucos homens que esteve na Câmara Municipal de Águeda antes e depois do 25 de Abril...
SP: Como é que foi a experiência na Junta de Freguesia da Borralha?
AF: A Borralha, que era, e é, uma povoação pequena, com vários lugares, tinha interesse na sua autonomia administrativa. Sabendo que as freguesias mais próximas da sede do concelho eram as mais desleixadas pela Câmara Municipal, sempre pensei que a desanexação traria benefícios à população. Foi nesse sentido que aceitei fazer parte da primeira comissão para a criação da freguesia e sensibilizar as pessoas para que a ambição de todos os borralhenses fosse concretizada.
SP: De que obras mais se orgulha enquanto presidente da Junta?
AF: São conhecidas todas as obras feitas, como a ajuda para a construção do Hotel da Borralha, a vedação do Parque do Souto do Rio, hoje abandalhado, a abertura de inúmeros caminhos que, mais tarde, foram transformados em estradas... Ainda hoje me orgulho de termos dotado a sede da Junta de um posto médico e de uma pré-escola, para o acolhimento dos idosos e das crianças da Borralha.