Estamos à espera da senhora ministra da educação…
Centenas de jovens adolescentes das escolas de Águeda desfilavam, ululantes, com tarjas e palavras de ordem, inéditas, tais como “abaixo a ministra” e “não à avaliação de professores”. À frente do tropel, seguiam umas pessoas mais velhas, com rugas marcadas por anos de ensino, demonstrando desassossego e inquietação. No meio, um grupo de jovens transportava cestos de ovos e de tomates maduros. “Vão fazer algum pic-nic?”, perguntou o Fernando Balantaines, que se aproximou curioso e admirado com o aparato. “Não vamos fazer nada disso - respondeu com vivacidade a Cristina Canas da Ginástica - os ovos e os tomates não são para comer. Estamos à espera da senhora ministra da educação...”. “É evidente que em cada ovo e em cada tomate, que se transformar em projéctil, vai um grito de alma, de inconformismo, de indignação”, bradou o professor reformado, Lenine de Falgoselhe. ”Bem dito - aclamou a Maria do Gabriel, em cima de uns sapatos de salto muito alto, batendo com o punho direito na palma da mão esquerda. O tempo ia passando e aumentava a ansiedade. De vez em quando, um ou outro, deslocava-se ao cimo da rua em missão de reconhecimento para avisar da aproximação da comitiva ministerial. Mas nada. Ali estavam há muito tempo postados, até que chegou o socialista José Charles Vidigal, que se aproximou do professor Carreiro e lhe disse alguma coisa ao ouvido. Este fez uma cara de desagrado e informou os manifestantes: ”Isto é indecente. Veio aqui dizer-me que, afinal, a ministra já não vem! Que falta de respeito por quem tanto faz, por uma classe espezinhada e vilipendiada. E alguns até de Viseu e Coimbra vieram...”. “E agora? O que é que fazemos a estes ovos e a estes tomates todos?”, perguntou, contrariada, a Cristina das Canas Ginástica. “Tenha calma, ninguém morre por causa disso “, disse o Luís da Portela, com um risinho maroto. E acrescentou: “egamos nesses ovos e nesses tomates, vamos para baixo, compramos uns chouriços no Zé do Candeeiro, seguimos até ao parque dos choupos e fazemos lá uma monumental omelete de chouriço e tomate, que vai ficar memorável!”. E assim foi. Quando já tinham comido e começavam a dispersar, alguém disse: “Olhem, o carro da ministra vai a passar em cima da ponte!”. ”Ai o malandro do socialista Vidigal, que nos enganou para desactivar a manifestação! “Mas nós não desistimos, vamos já para lá!”, disse, com veemência, o veemente professor Carreiro. “Ora, ora, já não temos ovos nem tomates e as manifestações quando de visitas de ministros estão tão banalizadas, que se não houver ovos e tomates pelo ar e umas bastonadas da polícia, as televisões e os jornais já nem ligam! “, disse o Lenine, a ir para casa! O professor Ilídio Poeta, que escreve poesia sem rima nem métrica, sempre se aventurou a compor este poema
O socialista Vidigal Não fez bem, fez mal: Mentiu ao Professor Carreiro Que é um tipo porreiro Disse que ministra não vinha. E assim o convenceu Que ela ficou no Pompeu A comer uma canjinha Por sinal, de galinha. E o Luis da Portela Até gostou disso Porque uma omelete comeu De ovos, tomate e chouriço! Que até levou mortadela! Não houve manifestação E nem sequer disparates E a ministra da educação Não estragou o penteado Por lhe terem atirado Com ovos e tomates!
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