Os animais ainda falam
Contam-se histórias do tempo em que os animais falavam. Bem recordo o encantamento que me invadia quando, na Escola, ouvia ou lia as narrativas que constavam do elenco dos trechos a memorizar ou a analisar e donde se retiravam ilações morais suscitadas pelos mesmos. E, até, tudo parecia, na oportunidade, a verdade genuína. Ora, se bem pensarmos, com certeza nem tudo era pura fantasia, pois as coisas ou os animais acarretam sempre em si um peso grande de mensagem e moralização que não deve desperdiçar-se nem esquecer-se. Os grandes pedagogos puderam e quiseram transmitir-nos, de modo figurado, o que pensavam por si próprios ou aquilo que traduzia o sentido da ética e dos bons e maus costumes então reinantes. FÁBULAS: Quem não se compraze com o puro sal das fábulas clássicas de Esopo, que viveu quinhentos anos antes da era cristã; de Fedro, contemporâneo de Cristo; ou de um Jean de La Fontaine, quase coevo das campanhas e descobertas portuguesas, os quais nos legaram diálogos vivos entre homens e animais sem percebermos nós de que lado ficará o sentido profundo racional e mais inteligente. As fábulas são contos de moralidade popular, autênticas lições de inteligência, de justiça, de sagacidade trazida até nós. Elas encaixam-se, com plena propriedade e hoje, na ingente tarefa de educar crianças e adolescentes. São lendas que espevitarão a curiosidade dos jovens e aos adultos proporcionarão momentos de lazer e matéria prima para partirem daí, rumo a exemplos nos trabalhos formativos ou pedagógicos. Os temas continuam com uma actualidade impressionante nesta emaranhada perda de valores éticos que deveriam nortear o sentir e o agir das pessoas. Valores esses que não desapareceram nem morreram, mas que, cada vez mais, se omitem ou, num tom mais linear, são voluntariamente esquecidos, porque supostamente inadequados a esta nova idade em que vamos mirrando. Enquanto o ser humano cresce e se despersonaliza, os animais não evoluem nas suas capacidades intelectuais, mas são fidelíssimos à noção e respeito pelos dons morais inatos e, ainda, reencaminhados pelos seus donos ou em escolas de conveniência. Expresso-me em forma alegórica ou fantasista mas, quase bem o poderia testemunhar com a veracidade da experiência. Remeto-me, muito a propósito e só para ilustrar, a dois casos exemplares que calarão a nossa sensibilidade nem sempre muito aguçada e atenta. ERA UMA VEZ… uma simples pomba; branca de penas e pura de alma. A sua responsabilidade consistia somente em vigiar uma senhora, irremediavelmente enferma. Todos os Domingos, logo pela manhã e por missão, eu a visitava e, quando lhe apresentava o Sagrado Alimento, a zelosa ave me bicava a mão “pensando”, na sua lógica de guardiã, tratar-se de qualquer gesto perigoso e agressor. Não demorou muito, porém, a habituar-se à minha presença de paz. Abriam-lhe, duas ou três vezes por dia, a janela do quarto e a dita pomba dava o seu giro higiénico e recuperador de forças, regressando, de pronto, ao seu posto de vigilância. Na sua hora própria, a mulher deixou a vida. Dois dias passados também ela, a pomba, voou para o seu etéreo descanso. Coincidência? ERA UMA VEZ… A gatita era um encanto de afectividade e doçura. Onde estivesse a sua dona aí marcava, ciosamente, a presença de companheira de todos os minutos. Com as habituais roçadelas leves e carinhosas, mostrava que era uma interlocutora capaz de responder aos afagos e conversas daquela a quem acompanhava numa afirmação de lealdade, doação e amizade. Os animais (alguns) são assim. Até eles manifestam a noção de reciprocidade e gratidão. Também eles “falam”. Ora, a senhora, quando já as suas forças enfraqueceram por completo, baixou ao seu leito de sofrimento e morte. A bichinha não mais a abandonou. Viveu a angústia de uma separação quase anunciada. E, quando isso aconteceu, chorou amargamente debaixo da cama da sua amiga e confidente, agora defunta. Por ali se manteve até às despedidas derradeiras. Oito dias após, foi a vez da pequena gata deixar o mundo dos vivos. Coincidência? Volto eu a perguntar. Era uma vez, porque, hoje, já nem com os animais queremos aprender os grandes momentos da vida e de sociedade exornada dos seus valores que, por serem perenes, deveriam presidir na acção de todos os que dizem possuir consciência e inteligência. PLATÃO: Já a razão assistia a Platão ao dizer: “De todos os animais selvagens, o homem jovem é o mais difícil de domar”. Nesta nossa actualidade, e quando a crise apregoada tem muitas vertentes que procuramos estudar e entender, também nos apetecerá repetir com o nosso Alexandre Herculano, parafraseando um outro pensador: “quanto mais conheço e privo com os homens, mais admiro e estimo os animais”.
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