Isto é um abaixo-assinado
O Joaquim da Trigal saiu com uma folha de papel de 25 linhas na mão, com um pequeno texto que enchia meia página. Nela levava a esperança de ser reparado dos grandes danos sofridos e de ser ressarcido com uma indemnização que desse para pagar ao menos cinquenta sacos de farinha e dois de fermento.
Estendeu a folha ao Rinodente e pediu-lhe que assinasse, apontando com o dedo a linha onde o deveria fazer. ”Isto é um abaixo-assinado - explicou, mostrando indignação - como sabe houve falhas de electricidade pelo Natal e pelo Ano Novo e nós, os comerciantes e industriais da baixa da cidade, tivemos prejuízos incalculáveis. Vamos expor a situação à EDP e ao Clube, porque ninguém olha por nós, é uma vergonha! ”Isso não vale de nada - respondeu o Rinodente - eles têm o monopólio da luz!”. “Pois é, mas o meu forno é eléctrico e foram-se-me duas fornadas de bolo-rei e várias de pastéis. E não pudemos fritar as filhós e as rabanadas porque a fritadeira não arranca só com uma fase!...”. “E os meus congelados... - interrompeu, com tristeza, o Zé do Candeeiro - tinha umas pescadas número cinco, umas sardinhas de Matosinhos que eram uma beleza e uns camarões tigre na arca e fui dar com tudo a nadar! ”E eu - lastimou-se o Acácio Queirós do Vale - que tive que pagar uma indemnização a um freguês! Estava a meio de um corte de cabelo à Luisão, à máquina zero, falhou a luz e para ele não ir para a rua com metade da cabeça rapada, tive que ir ali ao chinês comprar-lhe uma boina!”. O Paulo Rinodente compenetrou-se e disse: “Eu não me importo de assinar isso, porque vocês têm razão, mas primeiro quero ler o texto. Ele mostrou-lho, então, e rezava assim: Ex.mo Senhor Presidente do Clube da Venda Nova. Agradecemos que providencie junto da EDP para nos indemnizar, se não vamos começar a usar gasómetros a carboreto e candeias a petróleo e as acções deles na bolsa vão baixar e é muito bem feito. “O Paulo Rinodente leu e, com um gesto de evidente repúdio, disse: ”Isso não é texto que se apresente e eles até se riem dessas ameaças. Não assino nada disso!...” *** * *** Os Montanheses de Belazaima foram cantar as Janeiras a casa do Zé Carlos Flippers, na Falgarosa, e para alguns convidados de fora que lá se encontravam. Para temperar o convívio, atrás do azeite saboroso do Alqueva, veio o bacalhau com batatas e grelos, apanhados na horta do Manuel Farás. Gaitas e gargantas afinadas soaram pelas mesas e pelas jarras de vinho baujolais da região demarcada de Falgoselhe. Fez-se ouvir também a voz dolente de uma cantora. A certo momento o Zé Carlos solicitou a palavra eloquente de Eleutério Costa Nova, que não se fez rogado. Levantou-se, sacudiu os ombros e disse: “Cumprimento todos os presentes e os componentes do grupo folclórico e também esta cantora. Gostei muito das canções que ela cantou em língua brasileira. E do que gostei mais das batatas com bacalhau, foi dos grelos”. Foi interrompido pelo Fernando Balantaines, que começou a cantar um fado-canção tipo cantilena, num tom entre o baixo e o barítono, com falsetes de tenor e gritos de soprano e de tal modo sibilantes que, com a vibração, até caiu em cima de um bandolim uma canga que estava pendurada na parede. Depois dos Montanheses cantarem as Janeiras e mostrarem uma saca que indiciava a intenção de arrecadarem alguns donativos, o Costa Nova retomou o discurso e disse a concluir: ”Aqui o Zé Carlos nasceu nesta terra da Falgarosa, que antigamente tinha muita lama e nenhuma luz. Foi viver lá para baixo, mas nunca esqueceu o seu berço e até nos convida para cá virmos. Agora vou dar alguma coisa para a saca, mas para a próxima não falo...”.
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