Era uma vez…ou …quem pode parar o mundo
Parar o mundo! Num primeiro exame, aparece-nos este projecto como, simplesmente, ideia peregrina e estulta quando, bem pelo contrário, tudo nos pede e aponta para um desenvolvimento constante com abertura de perspectivas renovadas ou modernizadas. São empreendimentos que se substituem uns aos outros ou modas que envelhecem para darem lugar a diferentes géneros de vida. Em cada instante aparece o contínuo apregoar de modernismos transformados e transformadores. Novos saberes e outras culturas, pois o tradicional, neste instante, não é maneira de viver com qualidade e propriedade. O que era já não é. Até a coerência deixou de ser o âmago dos sentimentos humanos e do seu modo de agir. n VERDADE: As técnicas modernas, alargadas e adequadas aos variadíssimos sectores onde gravita a actividade dos indivíduos, incrementam um movimento que parece não conhecer mais o termo. Admiramo-nos porque a aquisição de alguma coisa, hoje, poderá ser de utilização ultrapassada, amanhã. No campo das ideias e dos sistemas sucede o mesmo. Não que a verdade deixe de o ser, mas porque a sua utilização variará consoante os interesses de certos momentos e pessoas. Na área da política, será como no desporto, inventando-se as tácticas que mais possam levar à vitória sobre o adversário. O ter, em movimento acelerado, não permite acompanhar-se com a mesma força ou intensidade, o ser que, muitas vezes, fica estatelado no caminho, exangue, esfarrapado e sem energias para se levantar do lamaçal onde caiu. E, entretanto, na constatação destes percalços todos, muitos teimarão em afirmar que os tempos são outros e que tudo avança na marcha imparável da vida. Também eu, valha a verdade, tenho de admitir, sem nenhum esforço intelectual, que os ponteiros do tempo não param mesmo que os relógios envelheçam e sejam postos no escaparate de antiguidades ou, simplesmente, no caixote do lixo. Ora, ERA UMA VEZ… um indivíduo que cismava nisto e noutras muitas vicissitudes da vida agitada e frenética que ele e os demais aguentavam diariamente. Começou a idealizar a maneira como havia, por si mesmo só, de fazer parar o tempo, a vida, o mundo. Ainda que despendendo enorme esforço, não descortinava qualquer modo de operar. Até que, num belo dia, quase se deixou adormecer nas suas cogitações, ao volante do seu veículo moderno. Em profunda meditação, ia-se esquecendo de tudo quanto o envolvia e o movimento que imprimia tornava-se, em cada minuto e quilómetro, mais e mais lento. Só “acordou”, de novo, para a realidade, quando, despertado pelo coro barulhento e infernal de apitos desenfreados e bem sonoros, produzidos pelos muitos outros condutores que, não podendo ultrapassar, por compromissos legais de trânsito, se acharam em monstruoso engarrafamento. n TEMPO E HORAS: Chegou-se para a berma da estrada, parou, ouviu uns tantos epítetos que desejou não entender e concluiu por e para si que, afinal, não seria tão difícil assim, parar o mundo. Bastaria que um só alguém andasse mais devagar ou parasse mesmo. Por isso, analisou rapidamente, mas com alguns pormenores, muitos meandros da vida nos quais os homens influenciam o fluir do tempo e da acção. Lembrou-se das queixas sobre a economia para concluir que uma falta de pagamento, fosse do que fosse, a tempo e horas, paralisava de imediato as actividades diversas e muitos problemas chegariam às famílias impossibilitadas, conseguinte, de cumprir as suas necessidades e obrigações. Traria a morte do ânimo e da coragem para se continuar lutando. O desemprego iria prolongar-se e abalar os fundamentos da subsistência. O nosso homem recordou que seria suficiente um casamento desfeito para morrer, algures, a prática do amor; que um aborto praticado legal ou ilegalmente parava a vida e o mundo; que o desprezo voltado a um idoso travaria o auxílio à vida e sua riqueza armazenada; que a atenção esquecida ou negada aos mais novos, carentes de orientações sérias e atempadas, seria um cercear de novos horizontes construtores de vida pujante; que a instrução transmitida no esquecimento dos valores humanos morais e sobrenaturais apressaria o fim da prática do bom relacionamento e convivência entre os indivíduos e o desabar de uma sociedade a qual se desejaria sempre mais perfeita e activa. n LUZ DO DIA: Variadíssimas outras situações vieram à mente deste nosso homem, que ensimesmou-se e imaginou como seria viver se tudo estivesse, na verdade, correctamente aproveitado. Os minutos tinham-se passado com celeridade. Tornou-se noite. A luz do dia morrera. A escuridão confundiu. Pensou para si mesmo: - não afrouxei o tempo nem o matei, mas descobri como qualquer de nós pode, de um momento para outro, paralisar a vida ou o mundo, o nosso e o dos outros. Basta, apenas, travar um pouco o movimento pessoal. Os que vêm atrás, morrerão também. n P. MANUEL ARMANDO
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