As Bandas de Águeda
Atendendo ao pedido dos presidentes de algumas Bandas de Águeda, publicamos a intervenção do presidente da UBA, feita no dia 7 de Dezembro aquando do aniversário da Banda Castanheirense:
Dirigindo-se aos músicos e com um cumprimento especial à mesa presidida pelo presidente da Câmara, Gil Nadais, disse o orador que não fazia um improviso pelo “receio de se perder em considerandos pessoais e passasse ao lado do que realmente é, importante: a Castanheira e a sua Banda!”. E disse; A Castanheira é uma terra de que há muito nos habituámos a gostar, sem sabermos muito bem discernir onde está a razão: se é nos penhascos que a rodeiam, autenticas sentinelas da aldeia, se é no casario que ladeia as suas ruas estreitas, ou se é na natureza do seu povo, tipicamente serrano, cuja autenticidade lhe dá uma beleza difícil de caracterizar. Há muito que nos perdemos por estes recantos, quer visitando amigos, quer marcando a nossa presença nos aniversários da Banda Castanheirense. Hoje, cá estou de novo e com uma enorme satisfação porque, desta vez, investido no cargo de garante da harmonia entre as cinco Bandas do Concelho de Águeda! Missão que tentaremos desempenhar sempre, com a preocupação de sermos justos e, principalmente, leais para com todos. E, um dos culpados de eu me encontrar nesta posição é o presidente da Banda Castanheirense que, em sede de votação e a par dos seus colegas, me referenciou como sendo o seu candidato para presidir aos destinos da UBA. Agradeço-lhe, senhor Mário Jerónimo e aos seus parceiros directivos, a confiança que em mim depositaram e que, apesar da responsabilidade, espero nunca vos desiludir. Este é um lugar que aceitei por me ter sido imposto através de uma eleição onde, numa das raras vezes na história, houve unanimidade entre as cinco bandas do nosso concelho. Tudo faremos para honrar o compromisso assumido e responder ao desafio, tendo sempre em conta os princípios de coerência porque nos orientamos, na defesa dos reais interesses das associadas da UBA: as Bandas de música! Nós cumpriremos o mandato que nos foi confiado, regendo-nos por três essenciais mandamentos e o primeiro diz assim: - Ser, em todas as circunstâncias, advogado de defesa e usar todos os meios ao nosso alcance, e até à exaustão, pugnando pelos legítimos interesse das bandas sempre que, sobre elas, haja tentativas de injustiça ou sejam vítimas de tratamentos menos correctos que molestem a sua dignidade, venham eles de onde vierem. - 2º: Fazer de juíz de paz sempre que o vírus da discórdia ameace a paz entre elas: - com sensatez, com prudência e de forma equilibrada de modo a que nenhuma saia molestada do diferendo! O terceiro mandamento não é muito diferente dos outros e obriga-nos a usar a mesma justeza e razoabilidade para com todas! Não tememos o desafio nem a responsabilidade do cargo. E se estamos tão confiantes é porque, sinceramente, acreditamos nas associadas da UBA e na massa humana que as constitui. E essa confiança advém do conhecimento que temos, como poucos, de o que é ser músico! Revemo-nos neles porque lhes conhecemos a alma e apostamos neles porque sabemos o peso da sua magnanimidade e quão grande é a sua disponibilidade em prol das grandes causas: E a música é uma grande causa! O músico não é só um Ser especial, é um Ser superior porque carrega consigo uma abundante dose de quatro atributos essenciais: É dotado! É sensível! É artista!... Pois…eu só, enumerei três…! É que essa tríade de predicados, eleva o músico ao quarto elemento e que é o mais importante da natureza do homem: o elemento de nobreza! Não aquela nobreza que o meu dinheiro pode comprar como se compra qualquer título, medalha ou insígnia, mas a nobreza d’alma que o músico transporta consigo. É essa a nobreza que completa o leque das virtudes do músico e que não carece de documento para fazer testemunho: a prova está na vossa dedicação, no vosso garbo, na vossa dinâmica, no vosso sacrifício, na vossa competência! Vocês são a prova viva de nobreza. Essa nobreza que só vocês têm dentro de vós. Essa nobreza que vocês tão bem manifestam, em cada nota que tocam, em cada som que produzem, em cada trecho que interpretam, em cada partitura lêem porque, vocês, oh músicos, transportam nos vossos genes uma amalgama de Dotação, Arte e Sensibilidade que nem todo o dinheiro do mundo pode comprar! Sentimos orgulho por vocês e é por isso que confiamos no futuro e aceitamos o desafio de conduzir os destinos da UBA na senda do progresso, em harmonia e paz, a única forma da vossa arte atingir o seu zénite. Connosco, a defesa dos interesses das Bandas, e a preservação da sua dignidade, serão uma presença constante na nossa consciência crítica. Bater-nos-emos pelas causas justas. E a harmonia, entre todas, vai ser uma realidade e uma constante porque, as novas gerações de músicos, há muito, ultrapassaram as mesquinhas questiúnculas que alguns geravam e, numa estúpida teimosia, cultivavam. Mas, hoje, os candidatos a músicos, descendentes dessas gerações ou não, frequentam as mesmas escolas, tocam e divertem-se juntos e cultivam uma amizade sã, apesar de virem de todos os lados: da Nova, da Velha, da Alvarense, da Castanheirense, da 12 de Abril! E, na sua inocência de crianças, às vezes ainda meninos, é deles que recebemos as maravilhosas lições da grandeza humana. São os exemplos deles que, como luzeiros, nos indicam os caminhos a percorrer rumo à paz e à concórdia entre os Homens. Eles são uma lição de vida para nós, velhos do Restelo, casmurros, implicativos, teimosos e birrentos, que andámos séculos a fazer da música uma luta de galos e a desperdiçar o que ela tem de mais belo: a harmonia! Felizmente que os retrógrados propensos a atitudes problemáticas na sociedade, estão condenados a mudar a sua doutrina e os seus métodos, ou a ficarem isolados para sempre. A UBA veio pôr um ponto final no que podia ser considerado meros arrufos de namorados ou circunstanciais desavenças de vizinhos, mas que causavam amuos prejudiciais ao bom desempenho dessa tão maravilhosa quanto enobrecente arte. Hoje, impera o diálogo aberto e franco entre todos e sem hipocrisia! Não se olha mais para o outro, por cima do ombro, como se, de um inimigo ou ser inferior se tratasse. Cumprimentam-se e conversam e sem que a cor das fardas seja um obstáculo. Hoje, falam dos problemas musicais com a naturalidade, a lealdade e a franqueza de gente civilizada. Valeu a pena! Esta confiança era o que faltava para fazer de cada aniversário, de cada encontro, de cada convívio entre as Bandas de Águeda, um momento de alegria e festa para todos. Os músicos não são adversários, apesar de, num passado recente, eles próprios assim se considerarem chegando a travar lutas físicas ou verbais que acabavam nos, às vezes, tribunais. Hoje, os músicos, todos os músicos, são os artistas de um mesmo espectáculo que é único e que executam como só eles são capazes. E, quando surgem problemas, estes são, normalmente, causados por aqueles que não foram, não são e nunca serão músicos. Ah, se o dinheiro fizesse deles músicos, como seriam diferentes!... O nosso músico, hoje, não é um utilizador mecânico de um instrumento. É um dotado de sensibilidade e inteligência e aproveita a circunstância desse privilégio, que não abunda por aí, para fruir o prazer da sua capacidade. Isso é que é ser músico! Só assim honra essa divina arte e os seus Mestres. Só assim encontra justificação para tantos e tantos sacrifícios a vencer até ser o que é: Músico! Tantas noites perdidas, tantos dias afastados da família, tantas camisas suadas a romper as solas dos sapatos e privados de tanta coisa boa que o mundo hoje oferece, só pode mesmo ser compensado pela felicidade de, com os outros actores da mesma peça, desfrutar do prazer e da paz que a música em tão grandes doses nos oferece. O músico não tem adversários. Tem companheiros da mesma jornada, tem amigos. E, para lá da exibição artística que cada um e todos, defendem com o brio que lhes é peculiar, para lá disso, dizíamos, a convivência em harmonia e paz, é rainha. Hoje, Águeda dá cartas no mapa musical do país e, apesar das dificuldades criadas pelas mudanças filosóficas da Câmara Municipal em relação a todo o espectro cultural do nosso concelho, sabemos ter, no presidente e em todo o seu elenco, verdadeiros defensores dos valores culturais do nosso povo. A música na sua generalidade, e as Bandas, em especial, são o grande pilar de uma disciplina capaz de suavizar agruras, acalmar iras e tempestades e modelar o coração do Homem para as grandes causas. Senhor Presidente: - Bem sabemos que são muitos a bater-lhe à porta neste tempo de vacas magras, mas nós, os músicos, continuamos a confiar no Comandante do leme e na sua equipage, fazendo votos para que sejam capazes de ultrapassar as turbulências e dar prioridade às primeiras necessidades dos náufragos: as Bandas de Música! Temos a certeza que o senhor presidente e todo o seu elenco vão reconhecer a especificidade das bandas e o esforço físico e económico que fazem para se manterem no nível superior em que se encontram para continuarem a ser o ex-libris e o orgulho de Águeda. Confiamos, senhor presidente, porque a causa é nobre e o senhor, é justo! Parabéns à Banda da Castanheira! 2008-12-07 n a.a.silva
2409 vezes lido
|