As manifestações...
Há dias, encontrei um amigo que já não via há bastante tempo. Era sábado e ambos estávamos com disposição para a cavaqueira. A mulher dele tinha ido para uma manifestação de professores em Lisboa, de autocarro. E por aí começou a conversa - pelas manifestações. Recordámos as manifestações em que participámos, e foram muitas. Ele, enquanto candidato a deputado por um minúsculo partido da extrema-esquerda maoísta, já extinto. E eu, como dirigente do partido mais à direita da jovem democracia. E ali ficámos a recordar as manifestações, comícios e ajuntamentos dos tempos quentes que se seguiram ao 25 de Abril de 1974. Recordámos também as “manifes” estudantis do início dos anos 70, que acabavam inevitavelmente da mesma forma - carga policial sobre os estudantes e pedrada sobre os polícias. E com alguns estudantes a serem metidos na “ramona” e levados para as esquadras. Relembrámos, ainda, as manifestações de apoio à política ultramarina de Salazar, na primeira metade da década de sessenta. Concentravam-se em Lisboa dezenas de milhares de pessoas para assistir à partida dos navios Niassa e Santa Maria cheios de soldados para a guerra colonial. Agitavam bandeirinhas e davam vivas a Salazar! Mas também não esquecemos que grande parte dessa gente era arregimentada pelos comissários políticos da União Nacional, que fretavam os autocarros e os comboios. Tal como fez o Partido Comunista, mais tarde, arregimentando os agricultores do Alentejo, em tractores e camionetas. Ou como ainda hoje fazem todos os partidos políticos, com autocarros de borla para encher comícios e realizações partidárias. E como fazem os sindicatos e as confederações patronais. Tempos diferentes, protagonistas diferentes, um elemento comum - a manifestação arregimentada. Mas como quantidade não é sinónimo de qualidade, há manifestações que são um fiasco, apesar dos milhares de manifestantes. Não dão em nada. Fica tudo na mesma. Da mesma forma que, com pouco barulho, há gente que consegue enormes resultados. Veja-se o caso dos bancos, das petrolíferas, ou das farmácias. Não se manifestam, falam baixinho, e lá vão conseguindo tudo aquilo que os outros, a berrar, não conseguem. Daí, a importância simbólica que atribuo a uma manifestação a que assisti na cidade de Rochester, no norte dos Estados Unidos. Era apenas um manifestante. Representava os comerciantes locais e empunhava um cartaz que dizia: “O Restaurante Victória não apoia o comércio local”. Vi este manifestante, e o seu cartaz, passearem-se durante uma semana no passeio fronteiro ao estabelecimento daquela cadeia internacional de restauração. Mais tarde vim a saber que a acção surtiu efeito - os comerciantes locais tornaram-se fornecedores preferenciais do restaurante. Com poucos meios e sem arregimentação, foi uma manifestação “Vitoriosa”.
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