As povoações serão aquilo que os seus naturais queiram. As terras são o espelho dos seus habitantes. Terra que progride, que evolui, é sinónimo de que os seus filhos progrediram e evoluíram, fizeram-se alguém.
O relato que aqui fazemos tem como única finalidade divulgar o nascimento do Sport Clube Paradela, para conhecimento dos contemporâneos e para que conste também para o futuro, tal como nossos filhos, netos, etc.
O primeiro jogo
Decorria o ano de 1963 quando, impulsionados pelo Ângelo P. Coelho e pelo António Matos Hilário (este natural do Silveiro e casado em Paradela), alguns paradelenses resolveram alugar o equipamento do Silveiro, que era todo preto, mas de preto tinha pouco, pois pelas lavagens e uso mais parecia cinza. O Ângelo foi a Perrães alugar as chuteiras e lá fomos jogar com o Piedade, num domingo de manhã. O guarda-redes era o Vitorino e jogou também o Ângelo Coelho, o Hilário, o Angelo Rato, o dr. José Dias (que estava no princípio da adolescência) e outros, que agora não me recordo, pois já se passaram 45 anos. Quem se recordará?
O primeiro jogo
O bandeirinha era o falecido Mateus Pato, que actuou do lado da casa do Valentim e, a substituir a bandeira, usou um ramo de eucalipto seco. E lá fomos nós, todos vaidosos. A maior parte vestia um equipamento pela primeira vez. As chuteiras eram de travessas de sola e perdemos (3-5) na nossa estreia.
Atrás da nossa baliza, estava o ti Albérico (já falecido), pai do Arsénio e do Vasco, que perguntou quem era o miúdo que estava na baliza. Alguém lhe disse que era o filho do Firmino, alfaiate. “Tem jeito, o raio do rapaz”, disse ele. Mas nem o jeito do rapaz impediu goleada. Este foi o primeiro jogo do Paradela.
Rivalidades...
Os anos foram passando e o “nosso campo” era o largo em frente à escola, onde hoje está construída a Igreja nova. Aos domingos de manhã, era aí que a malta se juntava para matar o vício, até que a 26 de Novembro de 1968, foi um dia memorável para todos nós. Nesse dia e ainda no campo da Piedade deu-se o “grande” encontro entre o já Sport Clube Paradela e o Recardães.
O Albano Carlos Batista ofereceu o equipamento novo, a camisola era vermelha e o calção branco e o emblema foi mandado bordar pelo Albano. Era o emblema do Benfica, mas tinha as iniciais SCP. O nome do nosso clube deve-se ao Albano. A camisola do guarda-redes era amarela e os calções eram verdes e almofadados, lateralmente. Perdemos outra vez, agora por 1-3. Jogámos contra uma equipa já muito rodada e, quanto a nós, era o segundo jogo que fazíamos no espaço de cinco anos.
Grupo de futebol
Já tinhamos o equipamento, havia força de vontade, as pessoas acompanhavam a equipa nas deslocações, mas faltava-nos o melhor, que era um campo de futebol, onde pudessemos treinar e receber as equipas que nos visitavam. Jogavamos em Barrô e na Piedade, por especial favor das pessoas desses lugares.
Um dia, o Vitorino lembrou-se de escrever um postal a cada pessoa que gostava de futebol, às pessoas que acompanhavam e apoiavam incondicionalmente a equipa, para as convocar para uma reunião no café da ALDA (hoje café do Mocho), no dia 16 de Dezembro de 1971. Escreveu aproximadamente 50 postais e, para surpresa de todos, o salão encheu-se. Foi então que o Vitorino expôs o assunto:
Jogaríamos no dia 16 de Janeiro de 1972, domingo dos Santos Mártires), um jogo entre solteiros/casados. O jogo estava destinado a ser na Piedade e, no fim, iríamos jantar ao Moliceiro, de Fermentelos, então propriedade do ti Artur “Ratazana”, que nos atendeu como só ele sabe, com muito simpatia e competência. Restaurante onde levaríamos convidados ilustres, para estes, por sua vez, intercederem junto das pessoas que teriam terrenos propícios para com campo de futebol. Mas o jogo de futebol agendado para esse domingo de tarde não se realizou, por haver um forte temporal.
Primeiros sócios
O jantar estava combinado e nessa reunião nomeou-se o primeiro presidente do Sport Clube de Paradela, que foi Camilo Soares de Campos. E inscreveram-se 82 sócios. O nº. 1 foi o Dário Albano Pinto Coelho e o nº. 82 foi Justino Fernandes Coelho (já falecido). E lá fomos quase todos a Fermentelos. Ainda recordo a ementa: sopa, filetes de pescada com arroz e rojões com grelos e batatas, pudim, café e bagaço. Pagámos 45 escudos por pessoa (hoje 2,25 euros).
No decorrer do jantar, o Vitorino usou da palavra, frisando bem “ a necessidade de termos um campo de futebol”. Catrino, Elísio (já falecidos), Jaime Nicolau e Camilo prontificaram-se a falar com Carlos Batista (que também foi convidado mas, por motivos de saúde, não pôde estar), com a finalidade de nos ceder um terreno para aí ser o nosso campo de futebol - o que hoje ainda temos. Trabalhámos muito nesse campo.
O Ângelo Coelho, o José Alexandre, o Jaime Catrino e o Vitorino foram incansáveis. Havia um cilindro que estava desactivado no centro e que era pouco mais que um rolo de pedra, fizemos uma estrutura de madeira para o poder trazer e, com o tractor do José Alexandre, conseguimos trazê-lo para lisar o terreno foram tempos lindos, de que nós nos orgulhamos. Quem escolhia as equipas era o Ângelo Coelho e nesse dia ele quis, e muito bem, que fosse um lugar da freguesia para apadrinhar o evento. Foi um jogo caricato, em que o árbitro foi expulso. Eu passo a explicar: havia aqui a morar um rapaz, a quem chavam Resineiro, que foi convidado para arbitrar o jogo mas ele, verdade seja dita, não percebia nada das leis. Então, uma bola bateu na trave da nossa baliza e voltou para o campo e ele, o árbitro, considerou golo. Foi um caso inédito e daí a sua “expulsão”.
O resultado (2-1) foi favorável ao Espinhel, considerando esse golo fantasma. O guarda-redes do Espinhel era o Correia Nunes. Seguiram-se outros jogos. Vencemos, de seguida, o Águas Boas (4-0) e o Aguada de Cima (3-2). Nesse ano de 1972, fizemos 16 jogos, com nove vitórias, um empate e seis derrotas. Tudo isto está escrito e pode ser comprovado.
Depois, outras direcções tomaram conta do clube e fizeram obra de vulto, tal como o alargamento do campo, o acesso, a iluminação etc. Mas essa direcções já apanhavam o comboio em andamento, porque os principais dinamizadores foram o Ângelo Coelho, Vitorino, Camilo, Jaime Catrino, José Alexandre e poucos mais . Mas como diz o velho ditado: "Mais vale não termos uma estátua e perguntarem-nos porquê? Do que termos uma estátua e perguntarem-nos porquê”.