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Que vale o nosso Património?

por Eleutério Santos em Setembro 30,2008

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O Conselho da Europa, cheio de boas intenções, procurou dar força a esta ideia de cada povo valorizar a sua riqueza patrimonial, dar atenção, conhecer bem, estimar, ter orgulho naquelas edificações que os seus antepassados ergueram, tantas vezes com sacrifício mas com orgulho, entusiasmo, brio, bairrismo, sentimento (patriótico, religioso). Nessa linha, o que fez então o tal Conselho? Visando promover a sensibilidade das populações para a salvaguarda do Património, lançou um desafio a meia centena de estados (mais de 800 milhões de pessoas) para que “iluminassem” as suas obras arquitectónicas (e escultóricas, paisagísticas…) mais significativas, as destacassem, divulgassem junto do público as suas características físicas, históricas, artísticas; a sua grandiosidade ou sobriedade; as condições do seu aparecimento, da sua utilização e utilidade social; criassem assim condições, oportunidade, para cada povo conhecer e acarinhar o que é seu, reconhecer e partilhar o afecto com que foi erguido pelos seus avós há centenas, há milhares de anos.
Pois que lhes parece a iniciativa? Bem lembrada, inteligente, nobre?
E Águeda que atenção deu a esta ideia que veio lá de Estrasburgo?
A que devia, honra lhe seja! Distinguiu a sua construção mais antiga, mais ampla, mais rica arquitectónica e escultoricamente, mais próxima do sentimento e da crença dos Aguedenses: a sua Igreja Matriz. Depois reflectiu com as autoridades religiosas sobre o valor e oportunidade da iniciativa transnacional, enaltecendo a ocasião -- cultural e civicamente muito rica -- de a mostrar, explicar mesmo aos conterrâneos. Juntos, CMA e Paróquia acharam que uma arte merecia outra, que as abóbadas do templo aguedense mostrariam melhor o seu preço se sob elas fosse entoado um canto sagrado. E assim foi feito. Foi convidado o coro polifónico Cantate Iubilo, de Barrô. E a noite foi magnífica. As vozes barroenses, primorosamente dirigidas por Leonor Santos, apresentaram dez cantos, de riqueza singular, única no concelho. Em latim, inglês, português e espanhol a arte polífona e poliglota dos de Barrô atacou Mozart Liszt, interpretou W. Menschick e E. Morricone, além de Cossetti, Leontovich, Loyd-Weber, sem esquecer a sentida poesia do espanhol António Machado. Cada peça mereceu uma explicação, breve mas claríssima, da sapiente e comunicativa maestrina. Letras estranhas em nada atrapalharam, pautas mais intrincadas resultaram em afinações que tocaram vivamente a (escassa…) audiência. A simplicidade, segurança, arte e pedagogia encantaram quem veio ouvir este coro que ali, à frente das santas Eulália e Luzia, ajudou a sentir a dignidade e beleza do templo centenar.
Poucos Aguedenses tiveram tempo e interesse para assistir a este casamento de duas artes na sua terra. Em compensação, um turista espanhol que passava por Águeda escolheu o concerto que teve lugar na Igreja Matriz. E tão encantado, tão deslumbrado ficou, que dali saiu par o hotel sem se lembrar mais de chaves, telemóvel, documentos… E teve de ir mais tarde bater à residência paroquial pedir ajuda para reaver os seus pertences. Pôde entretanto saber o endereço electrónico do Cantate Iubilo -- para lhe enviar sincero e belíssimo texto de agradecimento. Há sempre um espanhol para apreciar o nosso património que desprezamos.

ELEUTÉRIO SANTOS





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