Poupar energia...
Falamos a torto e a direito em padrões de consumo mais sustentáveis, mas não gostamos que nos toquem nos nossos padrões energéticos, a começar pelo preço. Ora as actividades de consumo não param de exercer pressões sobre o ambiente, de que os transportes e energia são o exemplo mais flagrante.
Falamos em desenvolvimento sustentável mas continuamos a agravar as pressões sobre o ambiente, acumulando detritos, substâncias perigosas, perdendo biodiversidade, estendendo os focos da poluição. O consumo privado é determinante para o estado do planeta: os modos de consumo domésticos serão responsáveis por cerca de 70 a 80% da energia utilizada e as categorias mais energívoras serão a alimentação, o transporte e os lazeres. Se não queremos continuar a misturar boas intenções com más práticas, se é verdade que não queremos comprometer o estado do Planeta e a capacidade de carga que vamos oferecer às gerações vindouras, temos de modificar os nossos padrões de consumo, exigindo melhores performances energéticas a começar pelos bens de consumo que nos cercam.
Gestos verdes
O consumo responsável tem apelado à sustentabilidade, propondo-nos, já várias décadas, que saibamos agir como consumidores-recicladores: ir às compras levando cestos ou sacos de plásticos já usados, sempre que possível praticar a compostagem, seleccionar os resíduos domésticos, entregar os medicamentos usados na farmácia, aprender a recuperar, trocando livros e discos, colaborando com a autarquia uma recolha e transporte de resíduos, etc. Não é fácil aos governos actuar com impostos ecológicos, aplicando ecotaxas e impondo o princípio do poluidor-pagador. No entanto, não haverá desenvolvimento sustentável sem uma concertação de posições entre os interesses do estado, as empresas e os consumidores. Numa lógica de cidadania, é indispensável a nossa adesão aos “gestos verdes”, fazendo convergir o consumo, a saúde, a educação e a qualidade de vida. Quando, em 1994, publiquei “O Livro dos Consumidores” incluí um capítulo chamado Gestos Verdes na Energia, baseado em recomendações do Centro para a Conservação de Energia. A título exemplificativo, sugeria que actuássemos diferentemente na cozinha, nas compras e no aquecimento. Por exemplo: no aquecimento de qualquer líquido num recipiente convém tapa-lo sempre, deve-se utilizar o forno com moderação e utilizar a panela de pressão para cozinhados que levem mais tempo, para reduzir o consumo da máquina de lavar roupa devemos agrupar as peças por categoria, adoptando o programa mais económico, adaptar a temperatura do ferro de engomar ao tipo de tecido, antes de comprar qualquer electrodoméstico convém procurar aqueles que têm maior eficiência energética, limpar as lâmpadas incandescentes e fluorescentes para aumentar a luminosidade, ser sóbrio com o piloto do esquentador (manter o piloto aceso durante o dia corresponde a um aumento do consumo de gás de 30% e durante o dia e a noite em cerca de 60%. Estas mensagens continuam mais ou menos actuais se bem que os electrodomésticos e o sistema de iluminação são progressivamente menos energívoros. Mas sabemos que é fundamental actuar-se no sistema educativo, preparando as novas gerações para viver num quadro de valores referenciado pela eficiência energética.
Procedimentos esbanjadores
“Eu Apago a Luz, Aprender a poupar energia” (por Jean-René Gombert e Joële Dreidemy, Círculo de Leitores | Temas e Debates, 2008), é um exemplo muito feliz de como uma publicação para crianças pode contribuir para formar um consumidor responsável pronto a gestos menos poluentes. Ensina a criança porque é que precisamos de energia e de onde é que ela vem, como podemos desperdiçar menos e quais os pequenos gestos a que podemos recorrer para a poupar. Sugestivamente ilustrado, mostra os nossos comportamentos sempre associados às fontes de energia. Destaca os nossos procedimentos esbanjadores: na má escolha de lâmpadas, no aumento indevido da temperatura das divisões da casa, lembra-nos que o monitor deve ser desligado se tivermos mais que quinze minutos sem desenvolvermos actividade ou que um todo-o-terreno consome duas a três vezes mais combustível do que um automóvel pequeno e polui duas vezes mais. O respeito pelo ambiente passa por nós e por esses pequenos gestos para poupar energia: usando cada vez mais lâmpadas de baixo consumo, desligando a luz de presença dos aparelhos eléctricos, evitando enxugar a roupa nos secadores, apagando as luzes quando saímos de uma divisão das casas. É um aconselhamento simplório? De modo algum. Educar uma criança é propor-lhe comportamentos, atitudes e valores à altura da sua compreensão, dando-lhe capacidade de intervenção, agindo sob o seu desenvolvimento pessoal. Precisamos muito de livros como “Eu Apago a Luz” e de pais e formadores que falem com as crianças sobre este conteúdo.
4915 vezes lido
|