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O Bode Expiatório

por CARLOS A. ABRANTES em Agosto 27,2008

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Somos um povo estranho. Louvamos e incensamos os vitoriosos, perdoamos-lhes os erros e as omissões, as asneiras e as promessas não cumpridas, mas lançamos às feras os derrotados. E temos uma atracção irresistível pelos extremos. Fixamos metas demasiado altas, atingimos resultados demasiado baixos, mas encontramos sempre uma desculpa para os nossos fracassos.
No futebol propomo-nos ser campeões da Europa, do Mundo, da galáxia e do que mais houver e depois ficamos pelas eliminatórias iniciais, pelos oitavos, pelos quartos, mas não chegamos lá. E a culpa nunca é nossa! É do árbitro ou do campo, do sol ou da chuva, do sorteio ou da bola.
Para Pequim propusemo-nos ganhar muitas medalhas. O Comité Olímpico comprometeu-se, em protocolo publicado no Diário da República, que seriam quatro, no mínimo. Menos do que isso seria uma vergonha para a Nação! Seriam medalhas no judo, na vela, no tiro e em várias modalidades de atletismo. Íamos encher os cofres do Banco de Portugal com ouro, prata e bronze. Bem podia Vítor Constâncio vender mais algum do ouro que por cá ficou do tempo da “outra senhora” para arranjar espaço para tanta medalha… Mas, como habitualmente, as coisas correram mal. No judo Telma Monteiro atribuiu a culpa ao árbitro. Nos 100 metros Francis Obikwelu queixou-se do joelho. No badmington Marco Vasconcelos queixou-se do vento. Na vela Gustavo Lima esteve quase lá (4.º).
A coisa esteve preta. As medalhas não apareciam e o ambiente azedou. O Presidente do Comité Olímpico, antes que o despedissem, declarou-se indisponível para novo mandato. Estava a ser um fiasco! E, como para todos os fiascos, era preciso encontrar um bode expiatório! Alguém que, tendo perdido como os restantes, não tivesse uma boa desculpa. Uma desculpa comum, um choradinho à portuguesa. E a escolha do Presidente recaiu sobre um tipo bonacheirão, com 127 quilos e 1,89 metros de altura, lançador do peso. Chama-se Marco Fortes, tem 25 anos e um sentido de humor de fazer inveja ao Eça. Então não é que o Marco, que foi eliminado logo de manhãzinha, em vez de se queixar do calor e da humidade resolveu dizer que “de manhã, só é bom na caminha…”. O que ele foi dizer! Coisa de dorminhoco, de mandrião, de calaceiro! Uma grave ofensa ao nobre povo português, tão dedicado e trabalhador, que abomina as Baixas Médicas e detesta bater uma sorna, seja em casa ou no trabalho! Resultado: o pobre do Marco Fortes foi recambiado no primeiro avião com destino a Portugal, condenado por ter proferido palavras pouco consentâneas com a sua qualidade de atleta olímpico.
Isso foi o que eles alegaram, porque a verdadeira razão é outra. A única razão para ele ter sido despachado à pressa para Portugal foi não ter ganho nenhuma medalha. Se tivesse sido medalhado, como Vanessa Fernandes, ele podia dizer as asneiras que quisesse e continuaria em Pequim. Nem que desabafasse, como ela: “é pá, fogo, é pá, carago, fogo, é pá, raio de prova, fogo, é pá, estes gajos são doidos…”  
Razão tinha George Orwell - Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.  




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