Para onde vai o nosso falar?
A expressão não nos prende à fantasia de crianças, mas, nesta altura, quero fazê-la reportar a alguns tempos atrás, um tanto recuados. Pois é, já lá vão vários anos, quando, nos velhos bancos de Escola aos, pomposamente, chamávamos carteiras, gastávamos os pobres fundilhos das calças remendadas pela mãe, que sempre primava por apresentar os seus filhos o mais decentes possível, aprendíamos muitas coisas boas. Os compêndios eram atraentes e convidavam-nos a leituras amenas e construtivas abrangendo os sentidos moral, social, religioso e literário. Os nossos autores clássicos do bom linguajar português eram lidos, relidos e interpretados, morfológica e sintacticamente, até ao pormenor. Cantávamos a tabuada e aprendíamos “de cor e salteado”, textos de prosa e poesias inteiras. Fazíamos cópias e ditados para apurar a escrita e enriquecer o vocabulário. As “velhas professoras” (para mim foi sempre a mesmo Senhora) eram exigentes e faziam-nos tremer quando recompensavam os erros, cometidos por qualquer de nós, com as formas tradicionalmente tidas como eficazes e correctoras. Apuradinhos é que era lindo. Nem mais. O apresentar os cadernos, substitutos da lousa que era produto caro e se tansformava em cacos com certa facilidade, limpos sem borrões nem rasuras, justificava-se como prática de rivalidade entre colegas alunos. A examinação professoral tornava-se actividade de todos os dias. E, se algum se “esquecia”, não ficava por muito tempo esquecido. “Alguma coisa” lhe refrescava a memória. É gratificante recordar isto. Não para chorarmos o passado, mos para nos orgulharmos pelo brio aplicado e que todos dedicavam naqueles quatro breves anos escolares. Iamos para a Escola sozinhos ou, quando muito, em pequenos grupos. Ninguém nos fazia qualquer mal. E como era agradável chegarmos ao primeiro período de férias a saber ler já muito correctamente! Vaidade para os pais e compensação grata para a professora esforçada. Mas para quê todo este arrazoado? Perguntarão alguns. E que... ERA UMA VEZ... Não vale a pena, agora, lamuriarmo-nos, mas as mudanças radicais em relação a tudo quanto se passava, comparando com a nossa actualidade, são experimentadas pela observação de cada dia. Neste momento, não se aprende e, também, não é permitido que se ensine. A desordem, para não dizer anarquia, é que passou a ser regra geral. A dicotomia entre a Família e a Escola é bem patente ou, talvez, só consentida. É que, também, as normas dos poderes constituídos conduzem as coisas para o estado actual de tais situações. Não desconhecemos isso. Ora, voltando atrás, comparemos o tempo em que a nossa escrita portuguesa era respeitado por todos os que amavam, de verdade, a Língua de Camões. Felizmente que nem todos embarcaram ou embarcam, ainda hoje, no adulteração da pureza linguística. Saúdo todos os defensores, mesmo que até anónimos, da forma correcta e dignificante do falar que nos foi transmitida pelos prendados e abnegados mestres que nos acompanharam, com as suas exigências, desde os ditos bancos do Escola Primária até às orientações daqueles que nos dirigiram nos anos seguintes. Foram, no desenrolar do tempo, feitas algumas alterações ou actualizações na forma de escrever ou falar. Natural e correcto, convenhamos. Todavia, experimentamos, no momento, uma perfeita sujeição a outra cultura que nada ou pouco nos diz respeito. Bem tento perceber a influência novelística que, há muitos anos, dura entre nós e que já colonizou parte do população a qual não procura, não sabe ou não quer filtrar o que ouve para o que fala ou escreve. Por isso, muitos alunos de qualquer Escola não sabe escrever. E até quero ignorar, neste momento, uns tantos professores, jornalistas, locutores, empresários, oradores diversos e outros adultos que, se lhes fossem aplicadas as sanções antigas, andariam com as mãos sempre e muito inchados. É que, frequentemente, numa simples palavra, escrita ou pronunciada, incluem vários erros ortográficos ou sintácticos. Então, para os justificar adoptaram-se alguns termos que não faziam parte do nosso léxico, nos que figuram, agora, no Dicionário moderno português. E, coroando toda esta caminhado, entra-se no novo acordo ortográfico, de nado valendo as inúmeras vozes discordantes de quantos desejam preservar o que nos distingue de outras gentes. Pessoalmente, para além de não ter já tempo para me adaptar a tais mudanças ou actualizações como lhe queiram chamar, não sei onde me matricular para escrever, falar e pronunciar, correctamente, a nova linguagem. Lamento mos, a partir deste momento, obrigam-me a reconhecer, paciente mas não passivamente, que... ERA UMA VEZ... porque a nossa Língua escrito ou falado, no futuro mais próximo, passará a ser o "brasileirês".
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