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Era uma Vez… Quem somos? os de cá ou os de lá?

por Padre Manuel Armando em Agosto 13,2008

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Não é meu desejo, de modo nenhum,    ligar-me a um passado carregado com fábulas e histórias de feiticeiras ou duendes. Mas, tudo na vida era uma vez. Cada minuto ou segundo que decorre nos relega para um passado, ainda que próximo. Todo o instante nos aproxima de actos que são recordações. O nosso mundo avança e nós com ele também nos envolvemos no mesmo movimento. É a lei inexorável do tempo que apanha na sua roda tudo e todos. Assim, urge que qualquer molécula da existência seja sugada com toda a sofreguidão calma, para nada se perder e haver algo de positivo que possamos exarar no livro da vida.
E é bom e salutar trazer à memória tudo quanto possa ter ferido a nossa sensibilidade para bem e nos leve, então, a aprender com a nossa experiência e com o ensino e exemplo que provêm dos outros.
Em todo o desenrolar da história dos povos, das famílias ou grupos e de cada um em particular, ninguém é tão pobre e ignorante que não possua algo para ensinar nem ninguém é tão rico e sábio que mais não possa aprender.
Esta osmose de conhecimentos e, sobretudo, dos sentimentos que, hoje, poderão ser apelidados de afectos, pode ter origem naqueles de quem,  porventura, menos esperávamos. Os nossos julgamentos mesquinhos, imediatos e inumanos são uma pala opaca diante dos olhos porque, teimosamente, não nos concedem descortinar, com justeza, os elevados valores daqueles que os possuem em larga medida, mesmo quando os julgamos não serem bem como nós. Há dons inatos mas que podem e devem ser desenvolvidos em ambientes familiares e educacionais.
É fácil ou frequente olhar-se para alguém portador de quaisquer deficiências e não se pensar na carga de qualidades ou dotes que traz sobre si próprio.
Destinam-se dias celebrativos para congregar “esses alguéns” em actividades que só eles, talvez, saberão executar bem e à sua medida, numa mistura de exibições descabidas e sem conteúdo para escorreito ver e aplaudir. De certo modo, quase são banidos da comum sociedade para se evitarem contaminações ou viroses. O ensino integrado parece não ser uma verdade por aí além.
Também não é menos certo que nos vamos abrindo para o facto da realidade insofismável de, através dos que chamamos deficientes, sermos confrontados com as nossas próprias deficiências ou, para sermos mais amenos, com as nossas insuficiências pessoais.
A propósito desta simples e rápida reflexão, abre-se-me a memória para o propósito que me ocupa, agora, o espírito.
Era uma vez…
O miúdo entrou na escola como outros da sua idade e da sua terra. Logo tudo fazia entender que a sua aprendizagem não seguiria as veredas dos seus condiscípulos. Ele não era como os restantes. Não se expressava com palavras audíveis ou inteligíveis. Nunca aprenderia, de certo, a escrever. Não brincaria, de igual para igual, com os companheiros. Mas já entendia, à sua maneira, de certeza, a vida, as coisas e, sobretudo, as pessoas e alguns valores. Quando qualquer dos outros meninos afiava o lápis, deixando as aparas caídas, conspurcando a sala de aula, logo se apressava, espontânea mas orgulhosamente, a pegar na vassoura e a deixar o chão com o esmero que lhe era devido.
Talvez isso ou esse exemplo seja de pouca monta. Mas não será de somenos importância um outro facto que calará fundo em gente dita normal. Numa determinada ocasião,  e como os miúdos nem sempre respeitam quem é mais velho ou tem o encargo de conduzir a educação intelectual e cívica, aconteceu um caso que, infelizmente, já não é tanto assim insólito nem isolado, nos tempos que correm. Alguns elementos da turma, de propósito maldoso ou ingénuo, fizeram por motivo fútil uma surriada malcriada à professora. As suas admoestações foram infrutíferas para ouvidos surdos e sentimentos inutilizados.
Chegou a hora de revolta e tristeza. Não descobriu outra alternativa a professora que não fosse mandar todos os alunos para a rua durante, pelo menos, alguns instantes mais alargados.
E, enquanto todos se foram a entregar ao folguedo da pausa, a professora, num momento de agonia e incómodo pelo sucedido, pousou a cabeça entre as mãos sobre a secretária e chorou, em silêncio, a sua dor.
Ninguém daria por isso, pensou. Todavia, naquele instante e no mesmo silêncio, sentiu a mão de alguém que a acariciava, ao de leve e a medo, na sua cabeça. Então, como que acordou para uma realidade diferente. Olhou, muito estupefacta, para aquele menino que não falava, era deficiente mental, mas, antagònicamente, dotado de um espírito arguto e capaz de entender a face dolorosa da vida quando os “sãos” desrespeitam os elementares princípios da educação ou desconhecem, por completo, o que sejam valores ou o seu significado.
Era uma vez, não muito remota, um menino… deficiente mental, que não aprendeu a ler, mas a quem a natureza enriqueceu com outras veias as quais emprestam sangue e vida aos donos de uma sociedade que não prezam nem ajudam ao crescimento emocional equilibrado de todos.n PMA

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