Para que servem os contentores?
Era uma vez um menino que sempre se entusiasmou muito pelas várias campanhas que a senhora professora ia propondo e promovendo, em ordem, a dar cobertura a todos os apelos vindos das mais diversas entidades, associações e firmas que visam o bom estado do nosso Planeta Terra, para que as pessoas vivam em circunstancias de saúde ecológica. HISTÓRIA: Valha a verdade que também, algumas vezes, não muitas, a dita senhora apelava ainda para os valores da vida e de um razoável ambiente moral e espiritual dos meninos, ainda que mais preocupada em ver o seu próprio nome elogiado por suposto interesse, do que os seus alunos, no todo, fossem exemplos de bom comportamento, o que é coisa de tempos passados. Pois é. O menino da nossa historita logo se preocupou em coleccionar as caricas das garrafas, em recolher rolhas para reciclagem e outros objectos. E, até, encheu algumas pequenas caixas de cartão com muitas pilhas de vários formatos e dimensões para apresentar em concurso, obtendo, com isso, uns tantos livritos para a sua escola. As coisas corriam de vento em popa. Os resultados eram satisfatórios, de certa maneira. Todavia, o reverso da medalha estava para acontecer. O menino foi crescendo. O seu ar infantil iniciou um período de oscilações e transformações. Os conhecimentos iam-se completando e diferenciando. Certas iniciativas válidas, deixaram de ter aquele encanto do início. O cansaço tornou-se vício. Mas havia algo que não entendia bem, habituado que estava em não ouvir coisas sobre ecologia ou reciclagens. DESCARTÁVEL: Teve conhecimento de que, no tempo dos pais e mais dos avós, os cueiros eram usados, lavados e voltados a usar. Mas, agora, sabia que os seus eram feitos de matéria descartável. Começou a perguntar, manhosamente, sobre para que serviam os chamados vidrões e os contentores. Notou que eram utilizados para depósito daquilo que não presta e vai para a lixeira geral ou, ainda que, alguns elementos seriam reciclados. Disseram-lhe que tudo podia ser transformado, mas aquilo que não prestava, não prestava mesmo, nada valia. Conheceu que existiam caixotes para tudo e mais alguma coisa. Veio-lhe à memória que, um dia, ou várias vezes, teve notícia de que tinham sido encontrados corpitos de bebés colocados, sem dor nem piedade, na mistura do lixo e mixórdia. Imaginou. Se os ditos contentores serviam para colocar sucata, longe dos olhos e dos narizes mais susceptíveis, aqueles bebés seriam também sucata a desprezar. Papéis, vidros, ferros, restos de comida, excrementos, resíduos, bebés... não prestam. Põem-se fora. As ideias do miúdo estavam em tumulto e baralhaçao. DEFORMAÇÃO: Tirou conclusões apressadas, precipitadas, disparatadas, mas coerentes com o muito que lhe haviam ensinado. Passou a pensar nos velhos que ele conhecia e, também, nos seus avós idosos de quem os pais afirmavam não prestarem já para trabalhar; pôs os olhos nos próprios pais que, mais mês menos mês, estariam na mesma classificação. Chegou à escola e, em grande contentamento inocente, ou nem tanto, anunciou à professora que, um dia, levará os pais para o contentor, onde são depositadas as coisas velhas que não prestam, porque já não produzem qualquer riqueza material, nem devem ser recicladas. É triste, é horrível? Mas é a conclusão quase lógica, imposta ao menino pelo tempo e (de)formação que obteve dos mais adultos.
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