O meu sonho de Natal
Quem nunca imaginou coisas, umas simples, outras mirabolantes como, por exemplo, ter autoridade fora do comum ou estar em qualquer missão de destaque e capaz de virar o mundo de cangalhas? É que, por enquanto, ainda vamos usufruindo o direito de sermos livres para pensar em tudo, quando estamos bem acordados. E, se o mesmo acontece durante o sono, é bom experimentar acordar com os laivos da esperança de tudo, num futuro próximo, vir a desenrolar-se tão bem como o vivido no filme do nosso subconsciente, em rédea solta e despreocupado. Quando assim é, um sabor a mel inebria, por vezes, as nossas papilas gustativas, que desenvolvem uma torrente de água doce na nossa boca, já de si azeda. O amargo total chega depois, ao verificarmos, na desilusão, que tudo não passou de uma brincadeira onírica inconsciente, sem saída plausível. Sonhos são, na verdade, sonhos ou realidades irreais. Mas comandam a vida, incontestavelmente. Pois eu sonhei e um sorriso irreverente assomou, logo, aos meus lábios porque se me anunciava o alvorecer de novo dia. Só eu o saboreei. Todavia, não quero admitir que o caso fique embrulhado, como prenda unicamente minha e, por isso, vou desfazer o lacinho e abri-lo, para também muitas outras pessoas sorrirem escancaradamente e sem vergonha. Sonhei que decorria nas ruas da cidade uma enorme manifestação social, política ou religiosa, não descortinei bem. O povo simples, o verdadeiramente trabalhador e funcionário público dos campos ou das oficinas, por direito próprio e democraticamente elegido, ocupava os “passos encontrados” das salas do poder constituído. Vergados ao peso dos anos de fome, cansaços e privações, cheirando a bafio e suor, os homens e mulheres continuavam os seus dias, num misto de certezas e desencantos, trabalhando para o bem comum, sem manifestar qualquer prova de enfado. Lá fora, milhares de altos funcionários, com patentes de Estado ou a ele ligados, em longas e intermináveis filas, eram os manifestantes dessa altura e a eles se juntavam faces ocultas e muitos, muitos senhores de comendas e mordomados, sem conhecimento prévio e pessoal, banqueiros e presidentes de administração disto e daquilo, a gritarem a sua vergonha por gozarem os gordíssimos ordenados, reformas e outras tantas benesses (passeadas em duplicado, triplicado ou mais…). Estes, levantando bem alto os cartazes uniformemente elaborados, afirmavam, com inaudita humildade e altruísmo, que, se o povo (aquele povo honesto e probo que estava no poder) lhes permitisse, iriam prescindir de todas as regalias que lhes eram impostas e justificadas por leis previamente elaboradas para seu proveito, em ordem a resolver e vencer a onerosa crise onde metade do país está sepultada. Achei que significava uma medida salvadora capaz e oportuna. Também eu me debruçava na janela do complexo governativo e, não só aceitei, como ainda incentivei, todo o povo anónimo, pretenso governante, a acolher e abraçar o protesto dos endinheirados. Contudo…, agora, eu acordo para a realidade. Isto não passou de mera e mesquinha fantasia. Sonhei ser uma prendinha a cair pela chaminé nas tairocas de quantos pelejam e caminham em busca de uma vida mais feliz e justa. Ficção pura porque, enquanto enxamearem os abutres gananciosos, isso não deve acontecer. Mas, ainda assim, atrevo-me a formular para todos o desejo de um bom Natal, porque o novo ano se avizinha carregado de sombras. n PADRE MANUEL ARMANDO
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