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O folclore e a raça...

por MANUEL FARIAS em Junho 27,2008

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Não tendo outro alicerce para o Estado Novo, para além da esperança da modernidade que o povo português sabia que tinha direito, António Salazar deitou mão de uma nova cultura popular para acoitar e condicionar o povo português durante muitas décadas, para além da censura e da prisão, já que a dita esperança de modernidade, entre 1928 e 1974 nunca passou da dita. Assim, tornou-se desígnio do Estado Novo moldar uma nova cultura popular, já que a genuína cultura tradicional do povo português possuia valores de auto-suficiência, de solidariedade, de comunitarismo, de espontaneidade brejeira que perturbava os aliados da Santa Sé, de pensamento livre, de alegria natural e simplicidade de processos.

NOVA ORDEM, NOVA CULTURA

Salazar percebeu que um povo assim jamais teria ordem “ordenada”, nunca seria temente nem obediente, dispensaria patronos, não acolheria o corporativismo em vez do cooperativismo, enjeitaria a estagnação, não desprezaria a novidade, haveria de ser solidário perante a diferença e, sobretudo, haveria de valorizar quem se dispusesse a pensar pela sua própria cabeça. Em resumo: não haveria Estado Novo.
Lá, nos esquecíveis anos 30 e 40, António Ferro foi o ideólogo do regime que inventou novos padrões para o folclore do povo português, acrescentando 6 (seis!) saias às mulheres da Nazaré, ornamentando as minhotas com ouro, resumindo o fandango ao Ribatejo (ainda por cima só com homens, como se os ribatejanos fossem homossexuais!), pôs cintas com pontas caídas aos beirões, chapéus com borlas para ribeirinhos da Beira Litoral e, pasme-se!... as algarvias pacatas e púdicas, foram desafiadas para uma nova dança, chamada corridinho, onde levantariam a perna mostrando coxas envolvidas em coullotes acabados de importar da cosmopolita Paris. Tudo novo, em nome do folclore antigo, mas para viabilidade do regime e desgraça da cultura tradicional portuguesa.
Em consequência e passado meio século, o que foi inventado tornou-se quasi-tradição, tal como os collotes, as cintas com pontas caídas, as sete saias da Nazaré, as borlas nas fitas dos chapéus, o fandango só de homens, as pernas levantadas no corridinho, o ouro minhoto, etc, etc. A farsa é tão grande, que os próprios políticos que foram os pais da incultura tradicional, dizem que é folclore quando puxam das suas farpas politiqueiras contra os seus adversários. Trata-se, efectivamente de incultura não saber que folclore é significado de valores e de património cultural imaterial dos povos, não se resumindo a danças e transportando a identidade de que somos parte. Quem dedicou alguma atenção ao fenómeno do Estado Novo, percebeu que a violência exercida sobre o povo português não se resumiu à repressão física, à PIDE, ao Tarrafal, a Caxias, a Peniche, aos julgamentos sumários no Tribunal de Monsanto ou à censura; muita desta coação também foi ideológica, alienando valores tradicionais do povo aos f's de Fátima, de fado, do futebol e do folclore falso.

RAÇA, NÓS? EU CÁ NÃO!!!
Seja pelas raízes, pelos valores ou pela identidade, todos os movimentos de esquerda (políticos ou meramente cívicos) são folclore, embora nem todos os folcloristas tenham que fazer parte daquele movimento. Assim, a propósito da raça, não faz sentido dizer que “… a esquerda mais folclórica caiu em cima do Presidente…”  Trata-se de um naco de incultura básica, por diversos motivos: em primeiro lugar, porque sabe-se que toda a esquerda tem valores comuns com os do folclore genuíno e dizer isto é o mesmo que constatar que o céu é azul. Depois, misturar o folclore (que trata de pessoas e da sua cultura) com a aplicação de conceitos animalescos de raça é de muito mau gosto, para não dizer que é profundamente insultuoso. Então nós temos raça? Então nós somos cães ou qualquer outro tipo de animal classificável em função do pedigree, do tipo de pelo, da forma das orelhas, da altura das pernas ou do aspecto do focinho? Que raça de coisa!... como dizia o meu avô Manuel Baptista, quando não era oportuno gritar um palavrão mais explícito.
Raça? Nós?... Eu cá não!!! Só se for pela diferença das convicções, classificando uns de raça católica, outros de raça protestante, outros de raça comunista, outros de raça socialista, outros de raça social-democrata e outros, ainda, conservem a raça fascista.

SALVAR A CULTURA TRADICIONAL
Começa a ser visível que, nos dias de hoje, é grande o esforço de melhoria nos grupos de folclore que estão conscientes da necessidade de eliminar de vez os conceitos e os tiques salazaristas introduzidos nas décadas 30 a 50 do século passado. Está em causa, não apenas restaurar a credibilidade do folclore, mas essencialmente salvar a cultura tradicional portuguesa do esquecimento e dos efeitos da adulteração introduzida pelo Estado Novo.
Para além do estudo e da investigação da etnografia e da antropologia, os folcloristas de hoje obrigam-se ainda a separar o “folclore” do “folclórico”, sabendo que o primeiro está para o segundo como a política (nobre e genuína) está para a politiquice (chafurdeira e falsa), que resulta das intervenções incultas, ainda que algumas sejam letradas, que sobreviveram ao regime salazarista, conservadas em naftalina ou mantidas à custa de cremes e plásticas sucessivas.

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