Os pequenos nadas que muito dão...
Pode parecer que esta expressão "Era Uma Vez" refere, apenas, tempos passados sem qualquer ligação aos nossos dias. Todavia, toda a história deverá mexer com a recordação de cada um de nós para retirarmos da lenda a actualização ou acomodação do que somos, pensamos ou realizamos. Não vivemos de fantasias mas elas poderão alimentar os nossos sonhos, projectando-nos para um futuro real e de verdade. Entenderemos o que alguém meditou, realizou ou pretendeu mostrar como algo que teria mesmo acontecido. São ideias que podem tornar-se realidade concreta pois incentiva ou cultiva a capacidade que existe no íntimo de cada indivíduo. Do pensamento e do querer se caminha para a acção. O abstracto tomará um aspecto concreto que transforma sistemas acomodados de vida em grandes planos de elevação e construção humanas. E aquilo que parecia ser diminuto, humilde e sem préstimo resultou em obras de vulto que maravilham quem observa e enobrece o seu fazedor. Quantos coisas belas terão ficado por efectivar por inércia ou desconfiança do seu valor como ideia realizável. Tantos projectos gorados por medo de iniciá-los. Um mundo imperfeito que o continuará a ser porque cada homem ou mulher não experimentaram sair do seu eu para se lançarem na aventura da descoberta do que parecia esconder-se no escuro ou na penumbra do querer e poder. Imensas são as capacidades que permanecerão para sempre no anonimato ou adormecidas porque cada um de nós não se remirou no íntimo e, portanto, não descobriu toda a energia que armazenava dentro de si. Se o fizesse teria encontrado minúsculos átomos que, postos em actividade, deveriam revolucionar a vida em todos os quadrantes humanos, desde os espirituais, aos morais, intelectuais ou sociais. A mudança seria certa e positiva e o indivíduo encontraria toda a sua força que ignorava ter e faria obras de suprema utilidade. Isto não pretende ser congeminação intelectualmente demagógica nem filosofia de arrazoado balofo ainda que possa parecê-lo. Mas é a constatação da nossa inutilidade consentida pela nossa indolência culposa quando mostramos temer os caminhos tortuosos que se estendem na nossa frente e sobre os quais preferimos fechar os olhos. Ah! Quase me esquecia da historita que intentei trazer à minha memória. Passo, de novo, para ela. Era uma vez... O homem, chamemos-lhe com carinho e admiração o “velhote”, havia deixado para trás anos de trabalho duro que o marcara para sempre. A reforma aparecia-lhe diante dos olhos como a antecâmara do fim dos seus dias- Estava quase a ser dominado por esse peso macabro quando quis reparar para a sua pequena horta, num quase momento de saudade ou despedida. Fora, nos seus dias e perante todos, pessoa simples e humilde. As suas riquezas e bens, eram exíguos. Apenas o seu casebre e o seu pequeno pedaço de terreno onde ia semeando ou plantando uns poucos mimos que, em cada dia, serviriam para satisfazer a sua subsistência e pouco mais. Pensou em cultivar outras espécies, ainda enquanto algumas forças o permitiam, e o seu espaço achou-se cheio e sem possibilidade para outras utilizações. Encantava-se por ver o crescimento das suas coisas- Imaginou não ser possível o consumo total imediato daquilo que a terra, agora, produzia. Deu voltas à cabeça e dispôs-se a distribuir o supérfluo pelos vizinhos e amigos. Em breve espaço de tempo de toda a parte começaram a vir até ele gentes de mais longe. Passou a ter fama de homem generoso e bom. Muitos deixaram de ter fome e ainda outros, pelo exemplo, foram capazes de encontrar razão para também produzirem algo de útil. Assim sucedeu criar-se uma cadeia de produtividade e partilha. Todos iam comendo e ficando saciados. Transcorridos alguns tempos, deixou de haver fome, ultrapassaram-se a preguiça e ignorância. O meio tornou-se diferente e próspero. As pessoas começaram a sorrir, a dialogar, a partilhar a amizade e a caridade. Houve mais fraternidade e paz. Todos principiaram a perceber que pequeníssimas coisas» e em pessoas humildes e generosas, eram como o pequeno naco de fermento que, introduzido na grande massa, tudo transformou porque fez crescer. Era uma vez... um homem, um velhote que conseguiu ilustrar e dar outro sentido à vida, a sua e a dos outros, com o verde da horta da sua esperança. O seu quintalito ficou como local de grande lição. Bem podia sintetizar, em imagem viva, o verdadeiro epitáfio de uma existência rica e transformadora. Ali ficou para sempre gravada a certeza de que vale sempre a pena aproveitar-se a última réstia de força e de ânimo. Um verdadeiro monumento visível à esperança nos pequenos nadas que florescem e produzem para além do que, alguma vez, se imaginou.
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