Quem somos? Ou dormimos?!
Era uma vez... Há sempre um episódio que se entrelaça na vida de cada um de nós. Em todas as épocas da história humana, aparece sempre um filósofo, um pensador, um ideólogo ou um visionário, a formular perguntas e a tentar, para elas, hipotéticas respostas. Foram assim construídos os grandes sistemas ou gizados enormes planos, que tentaram mudar o mundo mas que deixaram sempre o homem no centro da dúvida, na encruzilhada da existência, sem descobrir qual o rumo a tomar ou para onde dirigir as suas escolhas, mesmo que livres. Não é raro deparar com o exemplo de quantos desejariam descobrir as soluções para os seus problemas mais intrincados. Frequentemente se encontram jovens, sobretudo estes, mas também indivíduos já bem maduros, a lutarem consigo mesmos, à procura de espaço para viver, ou seja, em busca da sua identidade. Muitas vezes, será uma fuga a qualquer tutela ou, mais ainda, um afastamento das suas responsabilidades e dos seus compromissos naturais e humanos. Desejam encontrar-se consigo mesmos e, todavia, mais se afastam da realidade ou da verdade, pois, sozinhos, nem a si mesmos se reconhecerão nunca. Na antiga Grécia, colocada no frontal do templo de Apoio, em Delfos, podia ler-se a famosa inscrição, a qual era uma advertência ou conselho de um dos sete sábios gregos que se reuniam nesse templo: "CONHECE-TE A TI MESMO". Realmente, para cada um poder encontrar o seu mundo e descobrir, depois, os outros, terá de tentar definir-se sem se julgar. Encontrar-se é conhecer-se até ao mais ínfimo de si próprio. Pois, era uma vez um filósofo grego, indivíduo excêntrico, enigmático, de ideias cínicas mas um grande homem, que desprezava as riquezas sociais, as quais sempre considerou como entraves à liberdade. Chamava-se ele Diógenes. O seu modo de encarar a vida prestou-se a alguns momentos anedóticos que chegaram até nós pela história lendária. Numa ocasião, quando sentado na entrada de uma pipa, aquecendo-se com o magro sol de Inverno, terá passado por ele Alexandre Magno que se identificou como o grande imperador que era, perguntando-lhe em que lhe poderia ser útil, ou o que dele poderia desejar. Demonstrando o sentido da vaidade e inutilidade de muitas coisas, Diógenes respondeu apenas: "Tira-te do meu sol". De outra vez, o filósofo, ao ver que uma criança bebia água com a mão feita em concha, atirou fora a sua escudela, dizendo: "Ainda tinha uma coisa inútil". Este curioso e desprendido filósofo, conta-se, encontrava-se na rua, em pleno meio dia, com uma candeia acesa na mão. Ao ser interrogado sobre tal anomalia, somente ia afirmando andar à "procura do HOMEM". Difícil é achar o homem que se perde em vaidades e vazios de vida, que não pensa por si mesmo e permite que outros, e as máquinas, substituam a sua inteligência crítica e a sua liberdade. Quando se julga solto, está emaranhado na teia donde dificilmente há-de desenvencilhar-se se não houver mão amiga que lhe seja estendida, a evitar, o seu estrangulamento definitivo. Cada um de nós, para se conhecer ou encontrar -se, terá de acordar do sono ou da distracção em que, tão frequentemente, se deixa embriagar. Poderá vir a propósito, de novo, o "era uma vez"... Sim, era uma vez... um senhor bem posto, de gravata e bengala de aristocrata. Enleado, ou absorto, nos seus pensamentos pessoais importantes de fama e proveito, entrou no salão nobre de um restaurante para o precioso e bem comido almoço. Antes de sentar se, dirigiu-se ao lavatório, purificou as mãos, limpou-as na toalha perfumada e virou-se. Ao fundo, do outro lado, viu alguém que mal pareceu conhecer. Esforçou-se em trazer à lembrança quem seria. Curvou ligeiramente a cabeça num aceno de saudação afectada. Nesse gesto, foi correspondido em simultâneo. Avançou ao encontro da visão, enquanto, do lado oposto, o "outro" caminhou também. Finalmente, abriu-se- -lhe a memória e pensou reconhecer quem seria a estranha figura. Correu mais prontamente, estendeu-se para ela e, quando a quis abraçar... partiu o espelho. Certamente, podemos inferir daí que, algumas vezes, para descobrirmos a pessoa que somos, ou encontrar o nosso espaço, muitas cabeçadas havemos de dar se, na realidade, não acordamos ou não deixarmos que nos despertem.
2999 vezes lido
|