"A vida nos viveu e nós não a ela". - Fernando Pessoa
Toda a gente passa por chamados "estados de alma". Mais leves, mais pesados, mais frequentes, mais distantes no tempo. Confesso que, nestes dois ou três anos passados, tenho corrido todas as escalas. Dos piores, o chamado lado lunar de cada um, já há muito que sempre me carregou mais na época de fins de ano. Desta vez foi a neura completa: pelo que ficou e pelo que virá.
Dia 31 de Dezembro, quem na família próxima - que lá para fora não saí - conseguiu "aturar-me", tem no céu créditos para entrada... É aquela de não gosto de nada, não quero nada, não me apetece nada, pouca conversa, nada de telejornais, informações, buzinas noticiosas aos ouvidos. Deixem passar o trambolho do velho ano, que melhoro e volto ao meu normal, naturalmente sociável e optimista.
Família próxima e amigos sabem disto e apaparicam-me silenciosamente, Deus os abençõe!, mais do que no resto dos 364 dias que estão para trás.
O ano que vai de começo é bissexto, o que, mesmo em tempos de muito pão e muito circo, não promete grandes alegrias, e eu até não sou supersticiosa. De qualquer maneira, "sursum corda!" (corações ao alto!...), que escrevo já o trambolho 2011 está no diabo que o carregue e o meu dia anual da "telha" com ele... Estou já numa de haja "saúde que havemos de resistir"! Temos muita experiência... Outro dia ouvi o meu muito lúcido dr. Medina Carreira dizer textualmente: "Eu não contribuo para esse fado, que é andar a massajar a cabeça das pessoas (...). O optimismo é que nos desgraçou". O que não deixa de ser verdade com letra grande, sobretudo a partir dos idos de 2009. Quase ao mesmo tempo, por casualidade, caíu-me debaixo dos olhos uma descrição que Alfredo Keil (autor da música da Portuguesa) fazia do governo do rei D. Carlos em fins do século XIX: "Este é um governo de safados, de pilantras, de sacanas". Estava zangado com o Rei, por este lhe ter tirado alguns benesses e, com isso, além da bela música do nosso Hino actual, animou republicanos, anarcas e afins a alguns dos seus tenebrosos propósitos... "Citei estes insultos por duas razões: porque me lembrei dos optimismos que nos desgraçaram muito mais recentemente e porque quem resistiu a tão medonho governo, resiste a outros, a outros e a outros! Não convinha é que fossem todos seguidos, mas já se sabe que quem herda misérias não pode oferecer banquetes, nem prometer bailes de Carnaval. Como dizia o outro, só quando se monta a besta é que se sabe o cómodo que a sela dá! Por falta de comodidade, milhares de compatriotas nossos estão a "desertar" e, muito antes que conselhos governamentais o apresentem como solução, a prevenir que se fique em carne viva, depois da, salvo seja, "cavalgada...". Não foi o dr. Afonso Costa, insuspeito de todas as malandrices mal intencionadas, quem disse que "a emigração serve para equilibrar a balança comercial"? E por falar em malandrices (ainda por cima mal intencionadas, o que não deixa de ser uma redundância): a greve cozinhada por alguns sindicatos ferroviários. A orientar assim os ditos cujos trabalhadores adictos, era de mostrar uma valentia comunista pura e dura, à Mao, ou melhor ainda, à Querido líder! Ao menos, não eram só os utentes e contribuintes da empresa que ficavam na rua!