Era uma vez... (2): Os mais belos olhos do mundo!
Era uma vez... Gosto imenso desta expressão. Não porque ela me leve ao passado vivido e que não volta, ou me faça pairar nos braços da fantasia e do sonho, mas porque tem o seu quê de misterioso a extasiar a atenção infantil que há em todos nós. Ficamos atentos e ansiosos por conhecer todo o desenvolvimento e o final da história que desenvolve, ou dá largas à nossa imaginação. Pois então, era uma vez... um homem que, um dia, imaginou encontrar os mais belos olhos do mundo. Bem poderia empregar o se tempo em coisas menos custosas e que não fariam levantar quaisquer suspeitas a ninguém, mas propôs-se a si próprio esta tarefa de pesquisa. Fê-lo por todos os cantos e esquinas, em muitos dias, meses e anos seguidos, sempre com a esperança bem funda de, num lugar qualquer, numa ocasião fortuita, encontrar e contemplar, com todo o encantamento possível, os mais belos olhos do mundo. Reparou para as crianças, examinou os adultos, surpreendeu os idosos. Nunca desanimou, pois a meta que desejava alcançar valia-lhe todos os cansaços e sacrifícios» O seu ideal teria de obter, um dia, a vitória. Para tal empreendimento, guardou completo segredo, não fosse alguém querer seguir- -lhe as pegadas e chegar, em primeiro lugar, ao objectivo procurado. Calcorreou caminhos bastante espinhosos, furou por todos os lugares simples e enfronhou-se nas mais diversas reuniões da alta sociedade. Foi às escolas, aos centros de diversões, às praias, aos campos; andou a pé, de autocarro e de avião, tropeçou nas escadas dos comboios, subiu e desceu avenidas, passou pela serenidade das aldeias mais recônditas e viveu o bulício e confusão de grandes cidades; entrou em cinemas e cabarés, examinou operários e conquistou famílias. Perfilou- -se diante de muitos, olhou de soslaio, de frente, desafiou indivíduos e fixou-os, olhos nos olhos, pôs à prova a sua coragem e persistência, quando muitos se desviavam dos seus ensaios. Que descobriu esse homem? Desvendou a vida que, até então, fôra para ele um enigma sem solução possível. Penetrou nos olhos dos mortos... olhos sem expressão, sem força, quase com nenhum sentido. Quis sondar, perscrutar os olhos dos vivos. Como os encontrou? Que expressavam? Quanta diversidade, quantos mistérios e problemas se encaixavam sob um olhar. Então, que resultados para a curiosidade do homem da nossa história? Encontrou-se com os olhos inquietos de nervos, descobriu os olhos de saudade, alegria, curiosidade, medo e terror; topou com os olhos de fome e de fartura, olhos perspicazes e alheados, olhos que riem e olhos que choram ou espelham ansiedade e incerteza, olhos que examinam o interior e olhos de esperança; vislumbrou olhos confiantes nas certezas e olhos de dúvida, circunspectos, atentos, envergonhados... admirou olhos azuis, verdes, castanhos e pretos... Deu de frente com olhos desconfiados, vesgos, míopes, estrábicos ou até cegos; observou olhos matreiros, manhosos e enganadores; encarou olhos faiscantes e, também, os mortiços; conviveu com olhos lamuriosos, aflitos e eloquentes, observadores, ariscos e desesperados; deixou-se prender pelos olhos implorantes e os inquisidores; extasiou-se diante dos olhos vivos das crianças; foi à procura de olhos ciganos e fez uma busca de olhos africanos, asiáticos e europeus; viu olhos luminosos e opacos, olhos de verdade e olhos de mentira e de raiva. Pensou na escolha. Difícil. Impossível. Estava quase a eleger os olhos da simplicidade de todas as crianças como os mais belos olhos do mundo. Mas, numa pausa de reflexão, abriu o Livro da Palavra de Deus e leu: "A luz do corpo são os teus olhos. Por isso, se o teu olhar for bom, todo o teu corpo tem luz. Mas, se o teu olhar for mau, todo o teu corpo fica às escuras. Ora, se a luz que há em ti não passa de escuridão, que grande será essa escuridão. “(Mt 6/22-23) ou Lc. 11/34-36) E, leu, mais adiante: “Quanto a vós, ditosos os vossos olhos, porque vêem... Muitos profetas e justos desejaram ver o que estais vendo, e não viram...” (Mt 13/16-17) Pousou o Livro e correu para o espelho. Contemplou-se na imagem dos seus olhos, enamorou-se deles e, com comovente convicção, disse para si mesmo: “Os mais belos olhos do mundo serão os meus, quando procuro compreender as coisas, o mundo e os outros com os "olhos de Deus”... quando deixo cair as escamas da maldade e as traves que me impedem de ver com lucidez, simplicidade e alegria interior". Era uma vez... um homem (tu? eu?) que procurou, entendeu a vida e as suas coisas, mudou a maneira de ser e encontrou um rumo mais certo, porque, na pureza do seu coração, redescobriu, mesmo já cansado, os mais belos olhos do mundo... Os seus.
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