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O 25 de Abril vivo e o 25 de Abril europeu

por CARLOS A. ABRANTES em Maio 14,2008

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Lembra-se das frases “o 25 de Abril está vivo” e “o 25 de Abril é vermelho”? Ainda se recorda das letras garrafais com que apareciam nas paredes e muros?
Sim? Então, já não é propriamente um jovem!
O dia que dá direito a feriado e ponte, a discursos e cravos vermelhos, aconteceu há 34 anos. Por isso, se nasceu depois de 1974, não se ofenda com as palavras do Presidente da República sobre a ignorância da juventude em relação à data! Nessa altura ainda não tinha nascido. Na escola explicaram-lhe mal o que foi o 25 de Abril e lá em casa disseram-lhe que… Bem, aquilo que lhe disseram lá em casa, depende.
Para uns, o 25 de Abril foi uma data radiosa, que acabou com o fascismo, regime tenebroso iniciado por Salazar e continuado por Marcelo Caetano. Para esses, o regime deposto foi uma longa noite de quase meio século, em que os governantes, apoiados por pides sanguinários, mais não fizeram que apoiar os ricos e poderosos contra os pobres e oprimidos. E que, para além de perseguir e torturar democratas e republicanos, ainda matavam pretos na guerra colonial. Gente do piorio!
Para outros, o 25 de Abril foi uma tragédia levada a cabo pelos comunistas, perigosos agitadores comandados a partir de Moscovo, uns fanáticos da política da terra queimada. Se não fossem detidos a tempo destruiriam tudo! As fábricas, os campos, as famílias, o estado, a religião, tudo seria desfeito por estes bebedores de vodka e comedores de criancinhas. E os velhos, porque eram improdutivos, seriam mortos com uma injecção atrás da orelha. Gente do piorio!
Apesar destas visões catastróficas das minorias extremistas, o 25 de Abril de 1974 representou um enorme capital de esperança para a maioria dos portugueses.
Povo e elites, ricos e pobres, intelectuais e analfabetos, todos contavam com a queda do regime. A melhoria do nível de vida proporcionada pela adesão à EFTA, a Primavera Marcelista e a guerra do ultramar foram alguns dos aceleradores do processo. Se não tivesse sido derrubado, o regime cairia por si.
Para mim, que tinha 20 anos e o optimismo e ingenuidade próprios dessa idade, o 25 de Abril foi uma festa descomunal. A universidade fechada e farra da grossa! Passagens administrativas! Um forrobodó!
O pior veio depois, com os saneamentos, as nacionalizações, o controlo operário, as unidades colectivas de produção, os SUVs, os Otelos e os Vascos Gonçalves. Mas esses são os desvios inerentes a qualquer processo de mudança. São danos colaterais, como agora se diz. São feridas que o tempo já cicatrizou.
Continuar a comemorar o 25 de Abril com discursos e paradas, com cravos e figurões, com medalhas ao peito e comendas na lapela, parece-me um anacronismo, uma coisa do passado. Faz-me lembrar os tempos gloriosos de Brejnev na Praça Vermelha e de Fidel Castro na Praça da Revolução.
O 25 de Abril está vivo e assim continuará. Mas já não é vermelho. É europeu!

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