O ELOGIO DA SERENIDADE
Pensemos com serenidade: por mais que as estações do ano andem trocadas, desvairadas mesmo, por mais que os impostos sejam cada vez mais parecidos com a morte: inevitáveis, por mais que, como outro dia li, da pena António Barreto, “a expressão de opiniões e crenças está hoje mais limitada do que há dez anos; a vigilância do Estado reforça-se”, por mais que o ar de Fevereiro já nos pareça asfixiante, por mais que nos apeteça virar-mos a mesa e gritar “desisto”!”, a maré há-de acalmar. Houve um autor que escreveu uma obra chamada “O Elogio da Serenidade” e ao fim e ao cabo chegava à mesma conclusão. Também é verdade que, segundo Sharespeare, “não há filosofia (serenidade) que resista a uma dor de dentes”… e a rilhar os dentes, até doerem, andamos nós a fazer todos os dias. Daí, a depressão colectiva de quase todos os meus compatriotas. E a sentença infalível dos intelectuais de primeira fila: os portugueses são um povo triste!… Qual quê! Eu acho que os portugues até são alegres. E comunicativos. E repentistas, o que é uma forma de inteligência. E cheios de sentido de humor, que é outra. Também somos estoicos, que é aquela coisa de fincar os pés na terra e aguentar. Basta vê-los, os portugueses dos nossos povoados, quando interrogados por jornalistas das televisões quando mais uma “fatalidade” se anuncia! Há respostas dignas de almanaque e indignações possíveis de nos pôr a rir. Sobretudo dos mais velhos, que pela consciência da maior proximidade da sua finitude ou porque a experiência lhes diz que remar contra a maré faz doer os braços, se chegam a mostrar resignadamente divertidos. Dizia outro dia um idoso de remota aldeia, onde mais um postozinho de saúde havia sido encerrado: “Se me sentir mal de noite? Morro! Para semente ninguém fica…”. Não estou a fazer a apologia da resignação, que é quase sempre uma forma “mole” de estar na vida. Estou a fazer a apologia da serenidade. Nada como um dia atrás do outro, já se diz há anos e anos. Assim seja... n LUÍSA MELLO - 19-02-2008 PS: A entrevista do Primeiro Ministro à SIC foi um magnífico exercício de propaganda. O país pintado de cinzento e ele vê-lo cor de rosa!!! A ver, não. A impingir, que é bem pior. n LM
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