GOVERNO ENGANOU MAIS DE 700 000 PEQUENOS AFORRADORES
Sempre que entro num banco, fico com a sensação desconfortável de que os meus interlocutores olham para mim como um anjinho, um pato, um lorpa. Certamente por ter lido demasiado sobre mercados financeiros, sobre acções, sobre obrigações, sobre futuros e sobre outras coisas esquisitas, as minhas poupanças são aplicadas em coisas simples, quanto mais simples melhor. Fiz a opção de investir o fruto do meu trabalho apenas em depósitos a prazo. Não há riscos, o capital é garantido, a taxa de juro é definida e, na data do vencimento, tenho direito ao meu capital acrescido do juro. Isso era o que eu pensava. Isso era o que eu tinha aprendido, há mais de 30 anos, na Faculdade de Economia. Isso era o que me prometiam os bancos. Isso era o que eu estava convencido que constava da papelada que me tinham dado - muitas páginas de letras pequeninas, com uma cruzinha no fim, indicando o local onde deveria assinar. Mas, afinal, não era bem assim. Eu conto: Tinha um depósito a prazo. Na data do vencimento, peguei no meu computador e verifiquei se o valor respectivo tinha sido creditado na minha conta. Conforme previsto, o dinheirinho estava lá. Passei um cheque. Qual não é o meu espanto quando, dias depois, recebo em casa um débito de juros. Dois dias à módica taxa de 26%! Afinal, o dinheiro estava na minha conta à ordem mas não podia ser movimentado, vá-se lá saber porquê. E cobraram-me juros usurários, depois de me terem pago juros de miséria. Como diriam os Gatos Fedorentos - “fiquei chateado, é claro que fiquei chateado!” Obviamente, pensei em mudar de banco. Optaria por um banco português, já que confirmara o velho aforismo popular de que “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”. Nem boas contas, posso acrescentar. Mas que banco escolheria? Um banco grande, com muita publicidade, muitas agências, muitos administradores e muitos problemas, ou um banco pequeno, com pouca publicidade, poucas agências, poucos administradores e muitos problemas? Com a actual crise do sistema financeiro pareceu-me uma escolha difícil. Optei então por encostar-me à sombra tutelar do Estado e investir em certificados de aforro. São produtos financeiros de risco nulo e foram criados de propósito, há dezenas de anos, para incentivar a pequena poupança. Aqui não há letras pequeninas, nem trunfos escondidos. E têm uma rentabilidade interessante. Têm? Não. Tiveram! Porque este Governo resolveu modificar as regras e reduzir as suas taxas de juro para valores ridículos, muito inferiores aos da inflação. Nas actuais condições, o Estado está a vender gato por lebre, está a comer lentamente as pequenas poupanças dos aforradores. Afinal, tem a mesma postura e a mesma ética dos bancos privados. Na sua cruzada cega para reduzir o deficit das contas públicas, o actual Governo enganou mais de 700.000 pequenos aforradores, desincentivou a poupança e fomentou o consumo. Até parece que nos quer obrigar gastar as poupanças em jantaradas, passeatas ou outros consumos supérfluos.
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