dentada mortal
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“E Deus disse a Adão: Quem te mostrou que estavas nú? Comeste tu da árvore que te ordenei que não comesses? Então, disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi... E (Deus) a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore... maldita é a terra por causa de ti.” - Génesis 3. Vejo em Merkel a Eva da nossa desgraça e, nos nossos governantes, a serpente da nossa tragédia. Armámo-nos em trapezistas, acreditando na segurança das redes europeias, subimos até lá cima e catrapumba!!! Um trambolhão que vai deixar mazelas para várias gerações... Tudo começou mal, porque tudo foi furtivo e avesso à prudência, ao estudo e ao confronto democrático. Tudo cozinhado entre os estados- -maiores desta gente menor que nos governa e decidido por esta gente que vale o que vale e que parlamentarmente nos representa. Acreditámos nas palavras proféticas de Jean Monet e nas ilusões de Jacques Delors, como se eles fossem mensageiros do Bem e como se não houvesse uma Alemanha imperial, sedenta de mercados menores, ainda a lamber as feridas de guerras perdidas. Mas tudo começou mal, muito mal, para nós... Primeiro, rebentou a bolha do sector informático no ano 2000, com consequências traumáticas nas nossas exportações; depois, em 2001, entrou a China na Organização Mundial do Comércio. Coisa boa para a Alemanha, que viu dispararem as vendas de Mercedes, máquinas industriais e indústria farmacêutica para aquele país asiático, mas péssima para Portugal, que viu o sector do calçado, dos têxteis e vestuário a desaparecerem sem deixar rastos. Até a nossa indústria de duas rodas, aqui em Águeda, saboreou o amargo travo da culinária chinesa. Depois, vieram os novos países do Leste, com outro capital humano e outra competitividade, lançar-nos mais areia para a camioneta, a enrugar-nos os escassos fundos europeus e a deslocalizarem mais fábricas para o mundo eslavo; Com a Alemanha cada vez mais pujante, o euro subiu de 0,96 euros em 2001, para 1,61, em 2008, provocando uma deterioração dos termos de troca nunca vista, afundando ainda mais a nossa balança comercial e lançando para o lixo, o crédito das agências de notação. Para não referir o petróleo, cujos barris de 2001 a 2008, passaram de 20 para 140 dólares. Maldita cocaína! Porca de vida! E agora? A nossa aventura europeia foi um erro tremendo e vai sair-nos muito cara, porque, ao perdermos soberania monetária e financeira, também deixámos de poder decidir os nossos destinos. Até então, os nossos poderes nacionais ainda podiam efectuar desvalorizações cambiais, ou controlar a moeda em circulação, por forma a encarecerem as nossas importações e embaratecerem as nossas exportações e assim, equilibrar a nau, quando houvesse tempestade. Mas hoje, isso é uma impossibilidade legal, o euro não é nosso e não existe qualquer alternativa europeia, porque não há nem uma política fiscal, nem uma política orçamental comum. Estamos no corredor da morte, sem direito a clemência, nem a recurso... “É só no início do crepúsculo que a coruja de Minerva toma o seu voo”, escreveu Hegel, um dia. E a noite adensa-se, sombria, mas, desta vez, a coruja permanece imóvel, de asas caídas, parece adormecida, no seu galho ingrato. Sem outro paradigma, sem capacidade política e negocial com o senhores da Europa, sem uma ruptura radical com estas crenças primordiais no liberalismo e no monetarismo, que fizeram com que a dívida pública saltasse dos 90% em 2011 para 134% em 2013 (se, então, a dívida era impagável, agora, com estas políticas e com estes números, já é controlável?), sem uma aposta no desenvolvimento e num investimento público racional e reprodutor e sem consumo interno, a coruja de Minerva será tragada, definitivamente, pela noite... Só os ratos se salvarão! n NELSON LEAL
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