Mas que promessas!
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Nas bermas das estradas alongam-se filas intermináveis de pessoas, provenientes de muitos pontos geográficos do país, rumando num único sentido que supõe a chegada feliz a um determinado santuário, onde se cumprem promessas e votos ou se pensa tranquilizar consciências. O motivo de tal empresa pertence ao foro íntimo de qualquer indivíduo, mais ou menos crente e devoto. Calcorreiam-se os caminhos mais árduos, na mira de se alcançarem favores do alto ou como prova de gratidão muito sincera, algumas vezes até parecendo desafiar os limites das capacidades humanas. Não se têm em conta os sacrifícios a fazer quando as aflições são incomodativas, mesmo que essa atitude denote mais medo que afirmação segura de fé. De modo nenhum poderemos, nem queremos, medir a intensidade da vida interior pela lonjura dos locais procurados nem pelo peso de sacos que se transportem às costas. Um voto ou promessa pode permitir-se e acontecer, - digo eu, porque assim penso, - como derradeira instância de procedimentos ou complemento livre e consciente da actuação diária de obrigatoriedade e com finalidade justa. Quando se cumpriu já o dever de cada dia no que concerne à vida pessoal ou ao âmbito familiar e social, na linha da convivência e do trabalho, respeitando-se, ainda, os compromissos espirituais e de religião, então, uma ajudinha à esperança de vida melhor não faz nada mal. Mas, quando tais jornadas vêm “substituir” os primeiros deveres, percorrem-se caminhos errados e em direcções desvirtuadas. Faço esta reflexão para mim mesmo, observando algumas atitudes que, no mínimo, se me afiguram ridículas.Exemplifico o que digo, na base de exemplos, observados algumas vezes, e um outro até por conhecimento directo e pessoal.Quanto aos primeiros, que pensar de quem pretende caminhar, alguns dias a fio, de boca fechada e trancada com fita adesiva? Irá esse alguém a preparar-se para uma semana seguinte de má-língua, enterrando vivos e descobrindo mortos?! O segundo apontamento é mais sério e parece fazer demonstrar sadismo ofensivo para o homem espiritual. Bem pelo contrário daquilo que deveria ser. Conto isso com amargura até porque estive na génese do compromisso. O casal tinha realizado o seu casamento, oito anos antes. Em certa altura, o marido, por razões pessoais, “invocou” o auxílio divino para que lhe apressasse e “abençoasse” um divórcio desejado. E, na verdade, a família desfez-se, ficando dois filhos à deriva, na sua tenra idade. Ora o dito indivíduo, emigrante num país distante, deslocou-se à sua terra natal e, daí, começou a jornada a pé até ao Santuário de Fátima, para “agradecer” à Virgem o facto de ter conseguido divorciar-se da sua legítima esposa e satisfazendo assim a “promessa” que havia feito. É evidente que não vou privar agora o leitor de uma conclusão pessoal e fria para tudo isto. Todavia, pelo meu lado, interrogo-me sobre a leveza da inconsciência cristã, neste ou noutros casos, e não ouso sequer imaginar o ar de surpresa, desilusão e compaixão de Nossa Senhora por ter “filhos” dSer cristão é difícil e exigente. Não se chega aí com palavras e veleidades, mas vive-se nos esforços, renúncias pessoais, trabalho, espírito de abnegação e sacrifício, doação ao semelhante na fraternidade, na caridade, no amor.
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