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O quarto escuro

por Luisa (dra) Mello em Junho 20,2013

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Solidariedade é uma coisa magnífica e o que não lhe falta são pregoeiros. Se estes não fizerem como de S. Tomás se dizia, "fazei como ele diz e não como ele faz", minimizadas vão estando os enormes problemas sociais que a todos afligem.
Embora este quarto escuro global se nos apresente mais negro que quando dos nossos castigos da infância, a solidariedade é pelo menos aquela resteazinha de luz debaixo da porta. Temos é de a praticar com critério, que anda muito "boa" gente a aproveitar-se dos que para ela contribuem e muito "graveto" mal utilizado. Daí, o meu receio de, ajustadas as contas com os troikos, voltarmos aos vícios do costume. Se calhar, até já estarei a dormir aquele sono de que já não se acorda, mas gostava de deixar o meu país ajeitadinho e ajuízado para filhos e netos. O tempo do conserto não é pessimismo: suponho que a chamada dívida pública é a soma do défice de todos os anos que levam a liquidá-la, pelo que quanto mais tempo demorar a liquidação mais dívida se irá acumulando. Se estiver a supôr uma alarvidade, peço desculpa e alívio pensamentos turvos. De qualquer maneira, a luz no "quarto escuro" há-de abrir-se. Se até depois dos horrores e da destruição da última Guerra na Europa esta voltou a levantar-se e a dar-nos até períodos de descuidada prosperidade, não há-de ser esta terceira escorregadela lusitana que nos há-de matar colectivamente. Não mata, mas moe, e moe que se farta!.
E vou "desviar a agulha" da bendita solidariedade em que tudo isto tem sido alinhavado, para uma das maiores virtudes da minha doutrina católica: a caridade. Menos abrangente, mas mais íntima. De resto, na mesma linha de procedimentos. Neste caso particular - e não estou a fazer humor, que com coisas sérias não se brinca! - acho que seria uma elementar obra de caridade que o dr. Mário Soares não fosse convidado a manifestar-se em tudo quanto é comunicação social. E com que insistência!... É confrangedor, no mínimo. Não vai honrar a memória do que de bom dele viermos a guardar. Não merece.

Ainda a tempo: O que acabo de dizer traz-me à memória uma viajem que fiz com o meu Avô à Côte d'Azur, não muito tempo depois do fim da Guerra. Estaríamos pelos anos 50 e tanto do sec. passado. Hospedados num hotel da Promenade des Anglais, em Nice (Cannes?...), Começavam a ver-se na praia os primeiros bikinis. Encontrei debaixo da porta do quarto que partilhava com a minha tia, um prospecto que devia correr todos os quartos das instalkações hoteleiras da cidade e que rezava qualquer coisa do género: mesdames, mam'zelles, faites atention à la nouvelle mode des bikinis! Prosseguindo agora em português: peço-vos que tenhais caridade por vós próprias: não adoptem a moda sem primeiro se olharem ao espelho! Assinado pelo padre da Paróquia. Ao que vi e não vi, magnífico conselho, mais piedoso não podia ser. Há coisas que só mesmo vendo-nos ao espelho. Ou então que alguém veja por nós...


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