Jura da coligação no altar
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À porta da igreja, enquanto aguardavam a saída dos noivos, homens do aparelho, sábios, faroleiros e tartufos falavam de política local, sem azedume, por virtude do cheiro da cera e do incenso, embora tendenciosos. “Parece que já estamos em tempo de eleições – dizia o Abel Coradinho, há algum tempo afastado das lides políticas – o Gil Pedalais passa a vida a andar de avião, de um lado para o outro, e, quando cá está, em inaugurações e a anunciar primeiras pedras, a do pólo industrial, a da variante...”. “O pior são os montes de pedras que anda a pôr na rua, ao pé do tribunal, que ninguém lá pode passar!”, comentou o rr. Rui Falcão “Mas são obras válidas – continuou o Júlio Dinis das Bicicletas – acabou o ginásio, que é multiusos, que serve para jogos e festivais...”. “E vamos fazer um esforço para trazer cá os Beatles”, acrescentou o João Piedoso “Mas desses já morreu um!”, disse alguém. “E agora vão ter mais dificuldade no próximo sufrágio, por mais obras que anunciem – acrescentou o Abel Coradinho – porque vão ter adversário de vulto, a coligação PSD/CDS “. “Com essas pretensas lutas, indignei-me na última assembleia do Clube – interrompeu o Celestino de Almada, empinando o peito – para aqueles a que eu chamo deputados e outros chamam membros, parece sempre ser o dia das facas longas. Insultam-se, chamam imbecis e outros epítetos uns aos outros e um, mais bilioso e belicoso e sem respeito nenhum pela instituição, rasgou um papel e atirou os pedaços ao chão”. “Mas você teve coragem!”, disse o Rui Falcão “Pois tive, foi a primeira vez na minha vida que mandei alguém apanhar papéis... e ele apanhou-os! E reparem que, às três da manhã, depois de todo aquele ruído e tumulto que me fez perder a tramontana, nem à casa de banho pude ir, com medo que eles se engalfinhassem, no fim tudo foi aprovado por unanimidade!!!”. O Paulo Roçado da Mata, que também tinha participado nessa assembleia, disse com a tez turvada e ar façanhudo: “Não é de admirar que os rosas provoquem essas dissensões e conflitos porque o que perseguem é, na verdade, as eleições, com pouco zelo democrático”. A dra. Paula de Barrô, presidente dos laranjas, com um vestido flamante e uma estola de marta, vinha a sair da igreja de braço dado com o presidente dos populares, Micael do Olival, onde tinham selado junto ao altar a jura da coligação, disse com firmeza: “Vão ver que no futuro, quando nós ganharmos as eleições, vai acabar essa acracia e haverá paz e prosperidade no Clube e no concelho e até no país, com o nosso exemplo. Votem em nós!”. “Vocês nunca ganharão – afirmou, peremptório, o Jorge Enfermeiro – depois de inaugurarmos as obras que temos em curso, de lançarmos as primeiras pedras que temos para lançar, de implantarmos um braço novo no rio e com os votos da diáspora que o Gil Pedalais anda a angariar por Moçambique, pela Inglaterra e por outras paragens...”. “E até ao Irão foi buscar um prémio internacional das Zonas Húmidas, para Fermentelos, foi lá que descobriram que a Pateira é a maior lagoa da Península”, acrescentou o Júlio Diniz das Bicicletas. “Isso é tudo fogo de vistas – exclamou o Micael do Olival – só pedimos é que não lancem muitas primeiras pedras para obras, sabendo que nelas nunca se irão pôr as últimas!”.
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