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A democracia do tumulto

por Paulo Matos (Dr) em Janeiro 02,2013

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Vivemos tempos de tumulto quase institucionalizado.
Na política, na sociedade, no jornalismo, a forma prima quase sempre sobre a matéria, o acessório sobre o essencial, a manifestação sobre o diálogo racional e democrático sobre propostas alternativas.
O crime e a arruaça parece que não só compensam, como substituem, por defeito, o argumento, a razão e a defesa legítima de direitos.
O critério ético, a razoabilidade dos procedimentos e o bom senso, qualidades raras de cidadania, cedem sempre perante duvidosas razões de Estado.
Nos parlamentos, onde a cidadania era suposto estar representada, campeia a encenação, o embuste, a intriga, a demagogia e a mentira.
Há políticos que fazem mea culpa sobre as suas responsabilidades no estado a que o país chegou, e por isso são homenageados.
Outros políticos há que debandaram do país em período crítico e que pela calada de entrevistas ora só assumem parte da responsabilidade, ora são olhados com desconfiança, ora são alvo de elogio e vontade de regresso.
A sociedade, que é feita de pessoas, com virtudes e defeitos, vai cedendo aos caprichos da alta finança não produtiva, num cenário crónico de desindustrialização na economia e capitulação da política.
A justiça protege os fortes e desaloja os fracos, beneficiando dos escândalos das agendas mediáticas dos telejornais (buscas, detenções, escutas e inquirições) que em nada resultam.
Um bando organizado desafia “à pedrada” um corpo de intervenção policial e, durante um mês, em vez de se punir o desafio ilegítimo à autoridade, discute-se a demissão e o processo disciplinar movido a um diretor de informação do canal público (RTP), por causa dum alegado fornecimento de “imagens televisivas em bruto” dos desacatos às polícias.
O discurso político fenece, misturando solidariedade (estado social) com caridade (luta contra a pobreza), parecendo ignorar-se que se nada for feito, a primeira está falida e a segunda apenas conforta ocasionalmente os deserdados da vida.
Do estado clientelar, paternalista e tentacular à obra de Isabel Jonet, vai a distância entre o “monstro” (o mega Estado que, por decreto, consome a maioria dos impostos em salários, pensões e reformas), e o humanismo social que a “intriga” mediática destrói em lume brando.
Apesar de alguma insensibilidade governativa ao sofrimento, contra o desemprego e o desalento, a luta é bem intencionada, embora mal compreendida, e a receita, longe de segura, é teimosamente europeia e global.
A revolta, a exaustão e a ausência de esperança, latente nas famílias e no trabalho, convoca uma reação desajustada, na forma e no conteúdo.
O gesto simbólico da jovem que abraça o polícia de intervenção numa manifestação de indignados, não apaga a míngua de educação para os valores, patente no desrespeito constante pelas instituições (Estado, escola, família).
Um grupo minoritário de estudantes, num auditório de uma universidade prestigiada, interrompe uma conferência, em tumulto silencioso, abrindo um slogan e apelando ao Primeiro-
-Ministro para que se “demita”.
Perante a liberdade do desabafo, o Primeiro-Ministro responde com a tolerância do regime a que chamam “democracia”.
No dia seguinte, os escaparates anunciam: “Segurança de Passos tenta ato de censura” !
A liberdade (quase sempre justificada coma liberdade de expressão) confunde-se com libertinagem e livre arbítrio.
Nesta mesma linha de tumulto gratuito, ora silencioso, ora ruidoso, também na política em Águeda se vive um ambiente exagerada e incompreensivelmente crispado no aconchego de “interesses” partidários de circunstância.
Na Assembleia Municipal, alguns membros eleitos cavalgam atritos desrespeituosos para com o Presidente deste órgão deliberativo e, até por vezes para com o Presidente da Câmara, embora este e alguns membros do seu executivo, não raro, parecem conviver mal com o exercício do contraditório, como se o poder não tivesse o dever de ouvir as oposições, e estas não tivessem o direito de contraditar o poder.
No fim dum ano de 2012 tumultuoso e sofrido, a pedir mais cultura democrática e tolerante, não fará mal também entre nós, um mea culpa geral pelo que tem corrido menos bem e uma palavra positiva de esperança e ânimo para que o ano de 2013 possa ser melhor.
Bom ano de 2013 para todos !
n PAULO MATOS
* Membro da Assembleia Municipal de Águeda

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