Parceria da ESTGA com a Jerónimo Martins
Seria tentado a comentar a espécie de tufão que percorreu a Avenida Eugénio Ribeiro decepando de uma penada, árvores, hábitos e costumes, em nome de uma modernidade saloia que choca a alma de qualquer aguedense. Prefiro antes falar de um evento positivo que quase passou despercebido em Águeda, e ao qual a Câmara Municipal, alucinada que anda com o cluster da iluminação, da regeneração urbana e do “Agitágueda”, não só não marcou presença como não valorizou devidamente, enquanto parceira, em diversas áreas, da ESTGA. Refiro-me à celebração de um protocolo de parceria entre a Universidade de Aveiro – através da ESTGA - e o Grupo Jerónimo Martins (um dos maiores grupos económicos nacionais de distribuição, proprietário da cadeia Pingo Doce), nos termos do qual aquele grupo ajudou a definir o plano de estudos da licenciatura em Comércio, lecionada na ESTGA, para que, a partir do próximo ano lectivo, os alunos do curso adquiram competências sinalizadas por aquele empregador para a área de gestão comercial, podendo cada aluno usufruir de um estágio anual, acompanhado por um tutor nomeado entre os quadros de topo da empresa.
Ganham os alunos
O evento, só por si, é de extrema importância, quer do ponto de vista simbólico, quer da relação entre sectores da economia (público e privado) que tão crispada tem andado neste país de preconceitos, tornados verdades feitas, em debates pouco aprofundados e muito ideologizados. Quem teve o privilégio de assistir à sessão de assinatura do protocolo teve oportunidade de ouvir António Barreto, sociólogo e presidente do conselho de administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos, questionar o presidente da JM, o empresário Alexandre Soares dos Santos neste estilo directo e certeiro: “O sr. Alexandre poderá logo à noite abrir a internet que certamente encontrará comentários do género: Jerónimo Martins quer mandar na Universidade de Aveiro ou, Jerónimo Martins quer lucrar com a Universidade de Aveiro. O que pensa disto? “. No seu estilo pragmático habitual, Alexandre Soares dos Santos respondeu: “Quem diz isso são os atrasados mentais que não querem perceber as vantagens recíprocas da colaboração entre a economia privada e a universidade pública. Quem ganha são os alunos, que ficarão melhor preparados para responder às expectativas das empresas e terão melhor empregabilidade, e ganhará também a Escola Superior de Águeda, que verá reforçada a sua capacidade de atrair estudantes”.
Projecto pioneiro
As reações de sectores que o empresário apelidou de “atrasados mentais” não se fizeram esperar, designadamente da parte dessa “reserva moral da inteligência nacional” que é o Bloco de Esquerda que, entre outras verdades feitas de preconceito ideológico fez sentir que “é grave que seja uma empresa privada a definir o que vai ser dado num curso superior público” !. Ora, é exactamente este preconceito que, para além de ligeiro, demonstra os constrangimentos ideológicos que ainda dominam o debate sobre o modelo de desenvolvimento da educação superior em Portugal, que foi desmistificado com esta parceria. É um projecto pioneiro em Portugal, de relação entre um grupo empresarial e uma escola de ensino superior politécnico, que permite que o plano curricular de uma licenciatura seja delimitado à partida por um trabalho conjunto dos técnicos da empresa parceira e do académicos, potenciando uma formação acompanhada para os alunos e dirigida para a empresa, numa perspectiva de “conhecer-fazendo” que não é muito habitual num conceito de universidade conservadora a que estamos habituados. A empresa antecipa e investe num modelo de formação prática dos alunos, potenciais quadros empregáveis, acompanhado pela inevitável transmissão de conhecimentos teóricos a cargo da ETGA. Com este modelo, todos ganham. Ganha a empresa, que no momento da contratação não terá que investir de novo em formação profissional específica, já foi ministrada ao longo do percurso académico do futuro quadro; ganha a universidade, que ministra cursos de maior empregabilidade; e ganham os alunos, que recebem uma formação académica profissionalizante na área da gestão comercial, ficando habilitados a um eventual emprego no grupo empresarial parceiro, ou em qualquer outro.
Bons exemplos
Os ideólogos militantes (alguns “atrasados mentais”, na expressão de Alexandre Soares dos Santos) que em Portugal se entretêm a fazer “anedotas” com os currículos académicos de políticos profissionais (por maior importância ética que tenha esta matéria, e alguma tem, de facto!), deveriam antes ganhar algum tempo e valorizar os bons exemplos de empreendedorismo académico-empresarial, como é o caso desta parceira entre a ESTGA e o Grupo Jerónimo Martins. Estão, por isso, de parabéns a Universidade de Aveiro, a ESTGA e o grupo empresarial privado que investe e acredita nesta instituição de ensino superior público, mandando às malvas a tralha ideológica que ainda domina o debate económico-social em Portugal. n PAULO MATOS *Advogado e membro da Assembleia Municipal de Águeda
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