Apanharam todos os monárquicos
De estranhas e anacrónicas vestes seguiam rua acima, em passo cadenciado, levando à frente um homem volumoso, com ar marcial e de comando. Não parecia, mas era ele, o Dr. Faria das Barreiras! Trajava um capote czariano de surrobeco pardo, apertado na barriga por um talabarte que segurava um pistolão, com alamares e gola alta e umas calças de ganga cinzenta que terminavam numas polainas brancas com atacadores de fivela, que saiam de umas botas cardadas e a cabeça coberta com um chapéu de aba larga, também de ganga. Atrás, entre muitos, seguia o Cura Sanguessuga, vestido de moleiro do Ameal, camisa aos quadrados, ceroulas pelo meio da perna, seguras à cinta por um cordão, o Mar e Sal de lavrador rico, colete de ramagens com relógio de bolso preso por uma corrente de ouro, a Irene Colorau trajada de lavadeira do rio, com uma saia rodada que uma cinta vermelha fazia subir e uma rodilha na cabeça e o prof. Joaquim de Paradela, com umas bragas com uns fundilhos e galochas de borracha, todos com um pau de marmeleiro ao ombro. «Vão comemorar a Batalha das Barreiras, ou o 27 de Janeiro - informou o historiador Deniz de Bouquets - o 27 de Janeiro foi um recontro entre monárquicos que vieram do Porto, coitados, a pé e os republicanos de Águeda, a tropa de Aveiro e os populares, com paus, enxadas e picaretas esperaram-nos nas Barreiras e bateram-lhes!». «Quer dizer - continuou o Celestino de Almada - todos os que estavam vestidos de monárquicos, apanharam. E um dos que deu foi o meu avô, um grande defensor da República, até nem sei se era da Carbonária, veio de Aguada de Cima com uma mula, lutou, feriram-no em combate e até ficou a receber uma tença». Seguiram todos no cortejo, a pé, até às Barreiras onde foi descerrada uma lápide, com vivas à República e aos bravos combatentes. De súbito, surgiu uma mulher embrulhada numa bandeira azul e branca e com o escudo da monarquia ao centro, que clamou: «Eu sou da causa monárquica, quero o D. Duarte, o nosso rei!!!». Gerou-se grande agitação, alarido e efervescência. O Dr. Faria das Barreiras, indignado, tirou o pistolão do coldre e deu um tiro de pólvora seca para o ar, ao mesmo tempo que dizia: «Este tiro era para o rei, mas fez-me lembrar o Capitão Vasques». A Nôr aproximou-se timidamente do marido e disse-lhe em murmúrio: «Acalma-te, olha que eu antes do 25 de Abril, também fui monárquica!». Acabado o frenesim o Mar e Sal fez-se ouvir e sugeriu que fossem todos para Lamas fazer a evocação da Batalha. E lá foram. Remexeram nas gavetas do tempo, contaram episódios que tinham sabido por tradição oral e a certa altura, a Irene Colorau, quando atravessava a ponte medieval, arqueou o peito e exclamou ufana: «Imagino aqui o meu avô Silva, com o seu arcabuz, indómito e corajoso a perseguir um monárquico cheio de medo e a mandá-lo para o Porto...». Dali, rumaram todos para os Pioneiros onde em sessão, quase solene, falaram o Dr. Faria das Barreiras, que arengou sobre o 27 de Janeiro, o Mar e Sal que não sabia o que havia de dizer e fez a comparação entre os heróis da Batalha das Barreiras e a de Aljubarrota, só lhe faltou a padeira, e o Dr. Marques Bigodal que disse que a avó, sendo neutra, deu de comer a todos, republicanos e monárquicos. A certa altura, o Fernando Granizo levantou-se elevou a sua voz de falsete e disse a plenos pulmões: «Foi o meu avô que subiu a um poste e hasteou a bandeira da República e digo-vos, que foi feita de pano dos caixões, porque não tinham outro. Mas também vos digo, a certa altura, os monárquicos e os republicanos, já fartos de andarem aos tiros, foram para a tasca do Zé do Mouco, ao pé da Capela de Santo Inácio, que tinha um loureiro à porta, beberam uns copos e acabaram todos abraçados”.
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