Quando a esmola é grande...
A iniciativa tomada por alguns dos mais conhecidos representantes do capitalismo francês propondo a criação de um imposto especificamente destinado a repartir significativamente quinhões das respectivas fortunas pelos mais carecidos de molde a tornar menos gigantesco o fosso que por esse mundo fora separa os que são muito, muito ricos daqueles que vegetam na mais pungente miséria sem conseguir deixar de ser muito, muito pobres, essa iniciativa, escrevia eu, merece que lhe dediquemos alguns minutos de cuidadosa reflexão. Isto, estará bem de ver, desde que se trate duma proposta séria e não de mera brincadeira de mau gosto destinada a ser utilizada apenas como “isco” de ludíbrio social. Haverá sempre nas sociedades humanas pobres e ricos. Disso não tenhamos a menor dúvida. Bastará que uns aproveitem melhor do que outros as circunstâncias dos respectivos condicionamentos vitais: haverá os que gastam pouco e os que desbaratam mais do que seria razoável; os que se contentam com um modesto “utilitário” e aqueles que preferem consumir a fortuna na aquisição de um ou mais rolls-royces ou viajar em “executiva” em lugar de “turística” ou ainda frequentar o Gambrinus em vez do João do Grão ou ainda adquirir um bilhete premiado com a “taluda” enquanto outros ficam a zero e assim por diante. Uns nascem inteligentes outros fracos de espírito. Uns gostam disto e outros daquilo.Uns nascem em berços de ouro outros em manjedouras forradas a palha e assim por diante.Mas nenhuma destas circunstâncias justifica - ou deveria justificar - o abismo que divide o mundo em classes; um mundo que proporciona tudo a uns poucos e não concede nada ou quase nada aos demais. O homem consegue ir à Lua mas não é capaz de matar a fome a milhões de semelhantes. E assim por diante. Para Jean-Jaques Rousseau os homens, embora nasçam bons, comportam-se como feras quando inseridos na vida social; tornam-se lobos de si próprios segundo Thomás Hobes. E a ambição é um dos seus piores defeitos. Por mais que possuam mais desejam ter. Por maior que seja o poder que alcancem maior poder desejam exercer. O bicho homem é insaciável. Com as devidas cautelas, demos então de barato que aqueles “cresus” franceses - sem esquecermos os “bill gates” do outro lado do Atlântico nem os “abramovitches” que “sucederam“ aos “czares” vermelhos. Demos, então, de barato que a iniciativa desses Senhores revela “pés para andar“ e que dela resultará a formação de uma espécie de Fundo cujo capital será constituído pelos aportes daqueles que sejam considerados em condições de os realizar. É necessário agir ponderadamente para evitar que aconteça com o imposto sobre as fortunas o que as mais das vezes sucede com os socorros destinados a ajudar as vítimas das grandes catástrofes: ficam pelo caminho... Se, na verdade, aqueles que sejam verdadeiramente ricos forem chamados a participar na redistribuição da riqueza pelos verdadeiramente pobres, poderemos estar no início de um novo Mundo, de uma nova forma de vida. Importará ainda que o novo imposto sirva para melhorar a situação de quem carece verdadeiramente de ser ajudado, mas não para transformar os ricos em pobres continuando estes na miséria que se deseja erradicar. Os ricos devem pagar as crises mas não apenas os ricos. Todos devem ser chamados a contribuir. Mas a simples inversão das posições não resolveria o problema. Antes pelo contrário: em breve os ricos de hoje juntar-se-iam a quantos haveriam de continuar a ser pobres amanhã.
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