Pelé, com artigo definido
Os nomes são como os céus: há céus que não se esquecem; há nomes que não se esquecem. Para começar, a linha defensiva do União de Tomar: Conhé; Kiki, Caló, Faustino e Barnabé. Merecia uma foto de equipa só com os cinco. Não tanto pelo que jogavam, mas bem mais pelo que soavam aos nossos ouvidos. Sobretudo quando algum felizardo conseguia completar o quinteto em cromos que vinham a embrulhar rebuçados de alcaçuz. Ao Barnabé, vejo-o amiúde. O Conhé, reencontrei-o há dias, no Lavradio. Mas aposto que já não se enfileiram os cinco como uma lengalenga de meninos. Não sei porquê, os quintetos parecem equipas completas. No futebol e noutros desportos. Como no hóquei: Ramalhete; Rendeiro, Sobrinho, Chana e Livramento. Por causa deles enfiámos muitas pedras em sarjetas à força de talos de couve. E até no baseball, imagine-se. Rube Foster, Carl Mays, Ernie Shore, Dutch Leonard e Babe Ruth. E o nome da equipa também era agradável à mecânica auditiva: Red Sox. Um onze pode ter sonoridade, mas torna-se cansativo: Cosme; Gabril Alonso, Muñoz Serrano e Arsuaga; Mársal e Sobrado; Di Stéfano, Atienza, Seoane e Campa. Dificilmente o Real Madrid voltará a ter um poema de métrica tão perfeita, por mais Zinedines Zidanes que compre. E Zinedine Zidane é bom: ressoa a Sandokan e Mompracém. Digo que não sei por que parecem os quintetos equipas completas, e até talvez saiba: vem do tempo em que jogavam cinco na frente e esses cinco valiam pelos outros seis de trás, exceptuando talvez o guarda-redes. Há nomes que precisam de estar sozinhos e outros que precisam de gente em seu redor. Coutinho, por exemplo. A primeira vez que viu jogar Coutinho, Nelson Rodrigues escreveu: «Coutinho tem contra si o nome. O sujeito que se chama apenas Coutinho dá logo ideia de pai de família, com oito filhos nas costas e a simpatia pungente de um barnabé». Por isso, Barnabé precisava de Faustino, Caló, Kiki e Conhé, e Coutinho eram cinco: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. E a linha avançada do Santos parecia a letra de um samba. Há nomes que não se repetem. Em trios, como Popluhar, Pluskal e Masopust; em quartetos, como Kocsis, Hidegkuti, Puskas e Czibor; e principalmente sozinhos, como Capitão-Mor, da CUF, que se diria colega do Capitão Nemo ao comando do Nautilus. Há nomes que não se imitam. Isto é: imitar, imitam, mas ninguém presta atenção, como se a piada fosse velha. Eusébio, Garrincha, Beckenbauer ou Pelé: tudo nomes pessoais e intransmissíveis. Veja-se o caso de Pelé. É preciso um descaramento enorme para um jogador de futebol se chamar Pelé. Se não for o próprio, claro está! Esse tem todo o direito de ser até, se quiser, Edson Arantes do Nascimento. Agora os outros, francamente! E, apesar disso, ainda houve alguns. Começavam por ser Pelé, passavam a Pelézinhos e, depois, deixavam de jogar porque não valia a pena. No Recreio de Águeda também tivemos um Pelé. O nosso Pelé, ao contrário dos Pelés dos outros, era branco, o que revela mais do que descaramento: sentido de humor. Carlos Alberto Guerra. Há muito que não joga, e continua a ser Pelé. O Pelé. Com artigo definido. Mas Águeda é um mundo à parte, e lá, as coisas nunca são verdadeiramente aquilo que são. Nem os nomes. n AFONSO DE MELO (do livro “O Cão ao contrário").
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