Clube da Venda Nova: Nós, aqui no Alto do Préstimo, fomos sempre explorados e espoliados
Na freguesia do Péstimo disputam-se os baldios de grande valor, pelo pasto que fornecem a milhares de cabeças de gado que lá se apascentam, pelas arvores milenárias que por lá existem com enorme interesse ecológico e industrial e pelos pinheiros que fornecem toneladas de resina, agulhas e gravetos. São de realçar as acácias dealbalta, com as suas perfumadas flores amarelas e as amoras dos silvados que incham grande parte daqueles terrenos. Os baldios são administrados por assembleias de compartes e há no Préstimo dois movimentos que se degladiam. Um, centralista, que quer uma administração global e outro, regionalista emergente, que pretende duas administrações divididas pelo Alfusqueiro. «Obrigado pela confiança que depositaram em mim», proferiu emocionado o António a Suar, recém-reeleito presidente da assembleia, no adro da igreja onde decorreu a votação, frisando que «cumpriremos com elevação e transparência todos os actos de administração de todos os baldios de todas as aldeias desta freguesia». «Também estou muito contente com a reeleição», disse o Mário Noites, do Junqueiro, limpando uma lágrima furtiva do canto do olho. «Não diga mais nada - ouviu-se do meio do adro a voz arfante de um homem que vinha a correr – há quem vos queira tirar o mando, estão em Cabeça da Cadela pessoas a querer também eleger uma nova assembleia». Dirigiram-se todos em debandada para Cabeça da Cadela, onde fazia uma alocução sentida, em cima de um palanque improvisado, o Amílcar Lousinhas: «Nós, aqui no Alto do Préstimo, fomos sempre explorados e espoliados, nunca vimos um tostão da venda das nossas árvores e os terrenos estão todos a pousio, ninguém planta nada, só cortam, temos que criar nós a nossa própria assembleia para gerir o que nos pertence...». «E com que legitimidade?», gritou do meio da multidão o presidente Pedro Vidigal. «A legitimidade vem-nos da vossa inércia. A gente olha e vê os terrenos cheios de mimosas, urzes, mato, pútegas...». «Dessas estão os pinhais cheios à beira da estrada», disse o Luís Bastinhos, de Lourizela. «Ainda agora vi umas poucas na Alagoa, quando vinha para cima». «A vossa assembleia, além de não ter legitimidade, não tem senso, não se pode transformar o Alfusqueiro num rio internacional», continuou o Pedro Vidigal Começou então a agitar-se a turbamulta, gritos para aqui, socos e pontapés para acolá e a estrutura improvisada do Amílcar Lousinhas ruiu. * *** * A inefável Luisinha do Mel, que é pena escrever sempre com o aparo da mesma cor e traço grosso, entrou na loja do Zé do Candeeiro, com a saca das compras na mão, a estalar os dedos e a trautear jucosamente: «A mim não me enganas tu, a mim não me enganas tu, a panela ao lume e o arroz está cru!...». O simpático merceeiro, com o lápis atrás da orelha olhou e disse receoso: «Não me diga que se vem queixar da qualidade do arroz que eu lhe vendi, eu sou muito sério, só vendo arroz carolino e agulha da melhor qualidade, nem tenho cá trinca para não haver confusões...». «Não é isso, o arroz de que eu falo não é nenhum cereal, é um homem, mas também tem gorgulho», respondeu com ironia. «Sabe, liguei a televisão e dei outra vez de caras com o primeiro ministro a dizer que não foi ele, que não viu nada, que não sabe de nada, que não estava lá, que anda na horta e não vê as couves e tudo o que aconteceu, se aconteceu, foi antes de ele ter nascido...». «Isso é mentira», disse o Zé. «E ele já nasceu há mais de cinquenta anos!!! Mas ó D. Luísinha, eu não sei bem a que se refere, mas se não foi ele, olhe que eu também não fui!...».
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