O desperdício ou esbanjamento é um dos fenómenos mais emblemáticos da nossa sociedade de consumo: gera impactes ambientais muito grandes, lesa os orçamentos familiares, é uma imoralidade em termos de desaproveitamento de matérias-primas, entre outros danos. Se o desperdício ocorre em nossas casas, convém recordar que ele também se manifesta ao longo de toda a fileira alimentar. Com efeito, desperdiçar é não usar os alimentos que não podiam ser consumidos: por serem deitados fora por não corresponderem às características exigidas nos sectores da transformação ou da distribuição; em resultado de negligências diversas, perde-se um terço dos alimentos entre a transformação e a restauração rápida; em nossas casas, deita-se fora mais que nos transformadores e supermercados juntos.
Desperdiçar é sempre oneroso e poluente, está sempre associado a um custo ambiental, económico e social. O impacte ambiental é o mais perceptível, é aquele que se exprime em termos de quantidades de resíduos: constitui a fracção fermentescível dos lixos domésticos (há quem fale mesmo que estes resíduos são cerca de 20 % do total dos nossos lixos). Para além do impacte ambiental nos lixos, convém pensar que a produção, transformação, embalagem e transporte dos alimentos consomem recursos e energia, produzem CO2 e outros poluentes. Há mesmo estudos que referem que a alimentação representa cerca de 30 % dos impactes ambientais imputáveis a cada cidadão.
Então, se deitar fora comida é imoral, é ambientalmente nocivo e sai caro a cada um de nós, porque é que desperdiçamos? São diferentes as razões: porque se modificaram as estruturas e as organizações da família, os ritmos de vida, as percepções que temos da comida, o esquecimento dos prazos de validade, mas a lista arrasta-se.
É difícil identificar as práticas comerciais que influenciam claramente, num sentido ou noutro, o desperdício alimentar. Quando compramos por impulso, devido a promoções, em embalagens muito grandes, por exemplo podemos estar a influenciar o desperdício. O estabelecimento comercial está pensado e organizado para encorajar as compras, as técnicas do merchandising contribuem para a compra impulsiva, são as conservas que ficam eternamente nos armários, os legumes que apodrecem nas arcas frigoríficas, os produtos alimentares que compramos à experiência e nos decepcionaram. Fomos engodados pelas promoções, degustações, pela redução de preço... e depois deitamos fora. Embora ainda não seja muito frequente entre nós, a venda rápida começa a praticar-se. Compramos entusiasmados, não há depois circunstâncias para fazermos as refeições... lá vai mais desperdício. Mas também temos que contar com a má conservação dos alimentos nos estabelecimentos (basta ver ao fim do dia o refugo dos supermercados e dos hipermercados), a falta de informação sobre os prazos de validade, etc.
A venda a granel tem sido uma boa resposta às compras de grandes quantidades que depois acabam no lixo: comprar à peça legumes e fruta, charcutaria, queijos e peixe permite ajustar a quantidade necessária às necessidades de cada um. O comércio está felizmente a reagir bem, facilitando a venda de sacos isotérmicos que permitem não só facilitar o transporte dos alimentos congelados como mantê-los em condições óptimas. No design e na concepção de embalagens já começa a haver bons resultados no combate ao desperdício, eliminando embalagens que são difíceis de esvaziar completamente, molhos, condimentos e sumos, gorduras de fritar e barrar estão entre os principais responsáveis.
Há pois diferentes acusados de contribuírem para o desperdício alimentar. Na segurança alimentar devia ser dado mais ênfase ao design das embalagens, à rotulagem, às técnicas de frio, ao saber comprar as quantidades necessárias fugindo às falsas promoções.
É por isso que se recomenda a necessidade de adoptar uma estratégia anti-desperdício em que podem ser importantes atitudes como estas: sempre que possível, vá regularmente às compras, adaptando-as às suas verdadeiras necessidades; não vá para o mercado sem fazer uma lista do que efectivamente precisa e nunca descure as porções que vai utilizar: comprar em grandes embalagens quando se prepara uma refeição para várias pessoas, escolher pequenas porções quando se destinam a um pequeno agregado; não deixe facilmente seduzir pelas promoções, veja se elas correspondem às suas necessidades de armazenagem nas melhores condições; ler a rotulagem, verificar os prazos de validade, é a melhor maneira de prever o consumo dos alimentos e planear o aprovisionamento sem desperdício; quando se compra em regime de venda rápida, é preciso não hesitar em consumi-los muito rapidamente; ser cuidadoso com os produtos congelados e ultracongelados e acondicioná-los devidamente, para que eles não se deteriorem.
Nós não podemos fazer tudo para combater o desperdício, devemos ser consumidores responsáveis a ponto de ir o mais longe que for possível.