Ou é dificil ser árbitro
De forma alguma desejo contribuir para a destabilização reinante nos mais variados sectores das actividades humanas. Já bastam os numerosos desaguisados sobre os quais ninguém se entende, poucos explicam e todos dizem conhecer, aduzindo opiniões que, a cada um dos proponentes, parece ser a única verdade. Não é difícil topar com inúmeros casos onde alguém mete o bedelho sem conhecimento nem tino. Em determinados acontecimentos fortuitos assomam de todos os cantos, como ratos espantados, indivíduos com achegas de explicação para o ocorrido mesmo que nada tenham observado presencialmente. Seremos, talvez, todos ou alguns, em muitos momentos, aventureiros inventores de ideias e de conclusões. As ilações finais são força que não nos falta, quer se acerte ou não na verdade dos factos antecedentes. Corremos, frequentemente, o risco de nos deitarmos em maus lençóis só porque formamos um magote de curiosos que não conhecemos regras de realização e nem imaginamos as respectivas consequências que podem ser demasiado funestas para os nossos objectivos ou leveza de compromissos. Quando dou conta dos verdadeiros terramotos que sucedem antes, durante e depois de eventos desportivos, com revoltas, queixas que bondam, artigos, crónicas, debates, julgamentos e sanções, num amálgama de confusões das quais nunca mais nos vemos livres, tento não me imiscuir naqueles meandros que não fazem parte da inerência das minhas atribuições e ocupações normais ou usuais. Gostaria imenso, e mesmo, de não desconfiar da consciência tranquila, por exemplo daqueles que sopram num apito e sancionam as inversões de marcha dos acontecimentos desportivos. Também não descortino se o ser-se árbitro corresponde a vocação, formação ou mera ambição pelo metal sonante ou, ainda, a simples brincadeira escusada. Já agora e a propósito, trago à memória um episódio por mim mesmo experimentado o qual, hoje, eu não repetiria. Descrevê-lo-ei sucintamente para eu próprio me divertir e me repreender de modo a não voltar a expor-me, em idêntica façanha, nunca mais. ERA UMA VEZ… Estava eu nas terras do Tio Sam, quando, num belo dia, iria iniciar-se o campeonato oficial de futebol inter-empresas. Não é preciso dizê-lo, mas eu fui lá para assistir ao grande duelo daqueles que, acabando o seu turno de trabalho, se preparavam para mostrar todo seu cabedal futebolístico. Na hora aprazada não apareceu o “referee”. Ora, como esta palavra em português era sinónimo de árbitro ou perito, achou um parente meu, componente de uma das equipas, que eu bem poderia pôr o apito na boca e julgar os lances de um futebol mais agreste. A minha honestidade seria, segundo a sua opinião bem depressa corroborada pelos outros, significado de competência e idoneidade para o acto. Quis eu, então, brincar um bocado com a situação e, de comum acordo das equipas intervenientes, lá entrei em campo com aprumo e garbo. Mas, no que eu me fui meter!… As regras de futebol não eram nem são o meu forte. Mas como estava em boas graças, sempre que qualquer juiz de linha levantava a sua bandeira, eu logo apitava sem saber de que lado chovia a infracção; nem para isso olhava, mas qualquer um se dava logo como culpado e tudo seguia sobre esferas. Todavia, a coisa azedou um tanto quando um elemento se considerou injustiçado pelo meu julgamento e me “epitetou” de “son of a bitch”. (É melhor não efectuar a tradução directa). Admoestei-o, dizendo-lhe que, embora sem cartões vermelhos no bolso, o mandaria para a rua, a ele ou a outro que ousasse repetir o “elogio”. As coisas serenaram e, quando o jogo terminou, ninguém imagina a sensação de alívio que tomou conta de mim. Lá ficaram os vinte dólares que me eram atribuídos. E nem olhei para trás. Penso, agora: é difícil ser árbitro na vida. E, mesmo assim, é tão frequente encontrar quem meta o nariz em coisas e assuntos que não são da sua conta. Mas, porque todos nós, mesmo distraídos, o fazemos em muitas ocasiões, é que o mundo e os seus homens andam de candeias às avessas e a justiça já não é o que deveria ser.
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