As cerimónias comemorativas do 75º. aniversário dos Bombeiros Voluntários de Águeda foram marcada pelas homenagens póstumas ao comandante Neves dos Santos e aos bombeiros falecidos na tragédia de 1986. A efeméride foi presidida pelo ministro da Administração Interna, que anunciou 200 milhões de euros em fundos comunitários para apoio aos soldados da paz.
“É comovedor ouvir o relato emocionado de quem sabe que, quando o telefonista de serviço no quartel dos bombeiros ia a sua casa acordá-lo ao meio da noite, informando-o de um fogo ou de qualquer outro desastre, ele, de imediato, respondia: “Calma! Eu vou já ter ao quartel”. E o telefonista regressava como que sossegado, trazia a confiança que só os grandes líderes sabem transmitir”.
NEVES DOS SANTOS
Uma pausa e um suspiro antecedem a continuidade das palavras de Paulo Sucena. A evocação mexe com ele. “Não por acaso mas por múltiplas razões, não só de competência profissional ou de capacidade de diálogo e convencimento, mas também por outras de foro pessoal e humano, como a do comandante Neves dos Santos se escalar a si próprio para entrar de serviço nas noites de Natal e Ano Novo, dando aos outros o calor fraterno da sua presença”.
Momentos depois, o discurso do presidente da comissão promotora das comemorações dos 75 anos dos Bombeiros Voluntários de Águeda (BVA) cimentar-se-ia na rocha do busto do antigo comandante, inaugurado no âmbito das bodas de diamante da instituição.
A cerimónia foi presidida pelo ministro da Administração Interna, Rui Pereira, que condecorou os BVA com a medalha de mérito de protecção e socorro, no grau de prata e distintivo azul. Não conheceu o homenageado em vida, mas admitiu conhecê-lo “fugazmente, nas palavraspoéticas de Paulo Sucena”. E foram imensas as evocações ao antigo comandante e inspector regional dos bombeiros, falecido aos 63 anos,após três décadas dedicadas ao combate a incêndios.
ORGULHO E EXEMPLO
Francisco Santos, actual comandante dos BVA, salientou o seu “espírito de abnegação” e todo o legado deixado, que considera “motivo de orgulho e exemplo para todos os bombeiros”.
“Um exemplo que o tempo jamais apagará”, assegurou José Manuel Rolim, presidente da direcção dos BVA. Com as palavras a tropeçar na emoção,considerou Neves dos Santos “o melhor bombeiro português”, assegurando que “só com os olhos postos na história da associação é que esta poderá enfrentar o seu futuro”.
Gomes da Costa, representante da Liga dos Bombeiros Portugueses, recordou a capacidade anímica de Neves dos Santos, “quando naquele dia fatídico, com a alma a sangrar, soube incutir força aos seus homens para continuarem a fazer o seu trabalho e a defender a população”. O dia fatídico remonta a 1986. Mais concretamente, a 14 de Junho, o mesmo dia em que decorre esta homenagem e se celebram os 75 anos dos BVA, em honra dos 13 soldados da paz que pereceram naquela que foi a maior tragédia da história dos bombeiros portugueses. Também eles foram relembrados, com a deposição de uma coroa de flores junto ao monumento que imortaliza o seu derradeiro sacrifício.
VIDA POR VIDA!
“Vida por vida”, salientou Rui Pereira, evocando o lema dos bombeiros que os 13 homens honraram. O ministro, após distinguir os “75 anos de altruísmo, solidariedade e esforço ao serviço do co-cidadão”, destacou a formação da Secretaria de Estado da Protecção Civil, tal como acriação de mais de uma centena de Grupos de intervenção permanente (GIP) nas corporações de bombeiros, número que passará a acender a 600 no final do ano.
Momentos antes, o presidente da Federação dos Bombeiros do Distrito de Aveiro, António Valente, já tecera algumas criticas nesse âmbito:
“Que futuro está reservado aos Bombeiros Voluntários quando o socorro e a emergência está a ser entregue a forças que não têm bombeiros voluntários?”, questionou. O dirigente federativo lamentou ainda a falta de apoio aos bombeiros portugueses: “A nível social, muito pouco se tem feito e dado a estes homens a quem se exige tanto esforço e dedicação”.
O ministro da Administração Interna admitiu que “há muito a fazer”, salvaguardando que “é um caminho que se faz caminhando”. “Estamos a ir na direcção certa”, assegurou. Rui Pereira frisou ainda está prevista uma fatia de 200 milhões de xeuros em fundos comunitários no actual QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional), que visa a requalificação dos bombeirosportugueses, aconselhando que esta seja “bem aproveitada”.
E prosseguiram as intervenções, quase sempre com o saudosismo entrelaçado na memória. Neste dia de festa, foram recordados momentos felizes e tristes, homenageados heróis, debatidos assuntos sérios, esgrimidos argumentos sobre o futuro da instituição. Mas no final, todas as vozes, concordantes ou dissidentes, foram uníssonas: “Vivam os bombeiros!”.
n VICTOR MELO
ESPIRITO ESPECIAL
Gil Nadais encarou o veterano bombeiro José Laureano (quadro de honra), sentado na primeira fila do auditório (agora nomeado Adolfo Ribeiro) do quartel dos BVA.
“O que pensaria ele e os seus colegas quando fundaram os Bombeiros Voluntários de Águeda?”, interrogou-se.
O sorriso do velho “soldado da paz” acompanhou o complemento do autarca: “Sem dúvida que era um espírito especial!”.
E manifestou o seu agrado por esse altruísmo ter subsistido durante três quartos de século. n VM