Caldo quase entornado
Vou deixar esta semana a política em paz, fartos estamos todos, leitores e escrevinhadores, da intrigalhada e do desconchego que por aí vai, para me deter numa peripécia que me aconteceu em Paris a semana passada, peripécia que me parece ter o seu quê de picaresco e, portanto, susceptível de ser dada a ccnhecer aos meus mais fieis leitores. Quem de nós, quem de qualquer de nós, não terá já dito a si próprio, ou a terceiros que isto ou aquilo, sobretudo esta ou aquela desgraça, “ felizmente só acontece aos outros”. Na verdade, de uma maneira geral são os outros quem suportam as desgraças que passam por nós, deixando-nos mais ou menos incólumes. A expressão, por exemplo, repetitivamente utilizada “Graças a Deus” - deixou de significar seja o que for, porque tudo quanto de bom acontece é “graças a Deus”, embora nem tudo o que seja mau deva ser atribuído ao diabo. Assim , quando se chega ao termo de uma qualquer viagem e se responde à pergunta de quem nos esperava, se fizemos boa viagem, que sim, que chegámos bem “graças a Deus”, é obvio que ninguém está verdadeiramente a atribuir à intervenção divina o sucesso da deslocação, nem ao diabo se deve o insucesso que acaso tenha ocorrido. Trata-se de expressões meramente coloquiais, que pouco ou nada signifcam, utilizadas indiferentemente por creus e acreus. Eis, então, o que aconteceu com minha mulher e comigo esta semana, uma das tais coisas que só costumam acontecer aos outros mas que de quando em vez acontecem a nós mesmos. Na véspera do regressso a Lisboa, eu convidara minha mulher para jantarmos num dos melhores restaurantes da capital francesa, por sinal situado na própria sala de jantar de um dos mais luxuosos palácios parisienses. E convidara–a por saber que tem marcada preferência pelo referido local. Trocada a roupa, digamos que ”de passeio”, por outra mais “domingueira”, como antigamente se dizia, lá nos dirigimos para as delícias gastronómicas, certos, pelo menos, de duas coisas: que o jantar seria muito bom e também muito caro. Tendo verificado que ainda me restavam euros suficientes, ocupámos a mesa previamente reservada em nome do casal de Mello. Parafraseando JM Rilke, disse a minha mulher que parecia nada haver a assinalar (não na “frente ocidendal“…) mas na “trincheira do combate” gastronómico. Que nos preparávamos para travar. E comemos e bebemos divinamente. Antes de pedir a conta, ainda me deliciei com uma Poire bem gelada, de inexcedível «bouquet», e preparei-me para enfrentar a… dolorosa. Procurei nos bolsos onde costumo colocar os documentos mais relevantes. Procurei, mas não encontrei! Termos-iam roubado? Tê-los-ia deixado no cofre? A mudança de fisionomia do chefe fora sintomática: ao aperceber-se que o pagamento tardava e eu me mostrava visivelmente enervado, indagou (mas já em tom de voz diferenciado do anterior) se carecia de ajuda. Antes de responder, ainda pedi “socorro” a minha mulher mas ela, sim, recordava-se perfeitamente de ter deixado no cofre do quarto o cartão que lhe pertence… Restava-me confessar a minha debilidade financeira, propondo uma qualquer solução aceitável para ambas as partes. Foi assim que, de repente, assistimos à nossa metamorfose: de “grandes senhores”, passámos a possíveis golpistas. Acontecia que, frequentando alguns bons restaurantes de Paris há longos anos, fácil nos teria sido explicar a situação, ficando um de nós como “refém”, enquanto o outro ia em busca de “abastecimento pecuniário“, ou coisa que o valesse. Verifiquei, todavia, sem tardança, que era uma solução demasiado “fraca” para regularizar o caso a contento do credor, pelo que cogitei entregar o meu Pateck de ouro (muito mais valioso que o custo da refeição) até que me fosse possível regularizar a factura. «Vous savez, messieur...», titubeou o chefe de mesa. Era uma recusa, ainda que polida, embora já enfadada, quem sabe se não do próprio Director-Geral, pois as contrafacções são hoje em dia tão perfeitas que é fácil a troca de gato por lebre. Não nos conhecendo de lado nenhum, compreenderíamos por certo que, nestes tempos em que abundam as contrafacções, quem poderia assegurar a autenticidade do meu Patek? - Alors, messieur? Decidi, então, jogar a última cartada, convicto de que, no hotel onde costumo hospedar--me há mais de 30 anos, não deixariam de cobrir a conta. Era, porém, o derradeiro risco a correr. Se o “meu” hotel não pagasse, quem sabe se mesmo aquelas horas tardias não teria de acordar o embaixador de Portugal, por sinal meu velho e particular amigo?! Que grande seca, como diria o Eça. Sugeri, então, ao subitamente mal humorado chefe, que telefonasse para o “meu” hotel. Não muito convencido, o homem lá aceitou. Cinco minutos depois, novamente sorridente e mesureiro, informou que o hotel onde eu estava instalado punha naturalmente à disposição do senhor de Mello a importância que fosse necessário sem qualquer limite de verba ! Quando chegamos ao nosso hotel, estava um emissário do outro à espera - e não sei se à espreita - para recolher o dinheiro. Não é só na política que o Capitólio está a meia dúzia de metros da Rocha Tarpeia.
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