A propósito da crise do país e do mundo
Os leitores certamente concordam que a palavra «crise» entrou de vez no contexto de todas as conversas do dia-a-dia, estando ainda por determinar o verdadeiro alcance que irá originar em todo o planeta. Nunca, em temos passados, se assistiu a uma crise que atinge em simultâneo, as economias americana, onde começou, europeia e asiática, com novas frentes, como, por exemplo, na Rússia, no Japão e na China. Portugal vive actualmente uma grave crise económica e social, que tem vindo a provocar um aumento acentuado do desemprego e situações de carência grave para milhares de trabalhadores e suas famílias. A crise é de âmbito mundial e, por via disso, tem vindo a provocar uma situação de nítida recessão internacional. As causas são múltiplas, tendo início no sector financeiro, especialmente devido a políticas de especulação, assentes na filosofia do lucro fácil e rápido e num financiamento sem regras, às empresas e famílias, com taxas de juro extremamente elevadas. O desastre atingiu fortemente a economia produtiva, que ficou não só à mercê do sector financeiro, mas também devido à globalização sem limites, que promoveu a desregulação social e agravou as desigualdades económicas e sociais. A globalização foi dominada pela livre circulação de capitais, sem qualquer regulação, na actividade das multinacionais sem controle e numa concorrência desleal assente na violação dos direitos fundamentais dos trabalhadores e destruidora do ambiente e dos recursos naturais. A procura do lucro a todo o custo fez com que os capitais se orientassem para o sector financeiro e que muitas empresas dos restantes sectores não fizessem os necessários investimentos, desviando recursos para a área da especulação financeira. Há que combater agora a crise nas suas origens, para evitar a sua repetição, que se torna cada vez mais perigosa. Há que apostar numa globalização bem diferente, proibindo ou limitando fortemente as actividades especulativas e regulando a nova globalização, num combate à crise que terá de implicar acções a nível nacional e internacional. A actuação concertada a nível mundial, é indispensável, não só porque assim se poderão obter melhores resultados nas acções a nível nacional, mas também porque só desse modo se poderão combater as profundas causas que estão na origem da crise que se vive actualmente. A Europa e a mais vincadamente a União Europeia, neste contexto, têm agora especiais responsabilidades. Não se pode nem deve defender o regresso a um proteccionismo do passado, que agrava as desigualdades e impede a melhoria das condições de vida e de trabalho. Mas também não se pode aceitar uma globalização assente no «dumping» social e no agravamento das desigualdades entre os países mais ricos e os mais pobres. Por isso é imperioso avançar com medidas como estas: - Regular os mercados financeiros, proibindo operações puramente especulativas; - Introduzir transparência nas operações e nas contas do sector financeiro; - Proibir a acção dos paraísos fiscais; - Taxar as operações financeiras internacionais; - Introduzir uma regulação financeira a nível da União Europeia; Importa ainda reclamar uma governação económica e social por parte da União Europeia, que ultrapasse a mera gestão da livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas e aprofunde a dimensão social. A actual situação também é devida, em muito, à actuação do Banco Central Europeu que apenas se preocupou com o combate à inflação, desprezando os efeitos no crescimento económico e é bom recordar que o aumento das taxas de juro prejudicou fortemente as empresas e as famílias. Agora, perante o alastrar da crise, assiste-se a uma resposta a nível da União Europeia, que merece ser saudada. O Plano Europeu para o Relançamento constitui uma base de acção importante, quanto a uma actuação concertada da Europa a 27 Estados Membros. No entanto, o Plano Europeu, sendo importante, parece insuficiente quanto aos meios financeiros envolvidos e parece especialmente curto no combate ao desemprego e no apoio às famílias. Por fim e tendo ainda a UE como «pano de fundo», esta deverá desenvolver acções positivas de aumento do consumo interno, através da melhoria dos salários e das pensões, isto, porque face à dimensão do mercado interno europeu, o consumo será, sem dúvida, o principal motor do desenvolvimento económico. Hoje em dia, já ninguém parece duvidar do papel da Europa, no combate à crise, o qual passa, em primeira linha, por uma politica de verdadeira dimensão social e de respeito pelos direitos humanos. Em breve e em função do desenvolvimento que a questão da crise trouxer, voltarei ao tema de que hoje todo o mundo fala e sente, mas que nem todos ajudam a resolver.
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