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Um garotoque queria ser um telemóvel…

por Pe. MANUEL ARMANDO em Fevereiro 18,2009

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Natural é, na família, perguntar-se aos mais pequenos quais os anseios ou projectos no sentido de um futuro promissor e úbere de proventos chorudos. Em tempos que já lá vão, não era necessário ou possível fazerem-se grandes indagações pois as estruturas familiares económicas e sociais é que marcavam rumos e não permitam tais veleidades, pelo menos, para o comum dos mortais aldeãos. Alguns estavam votados a três ou quatro anos de tempo de Escola e muitos outros se postavam pelos dois, um ou, até, nenhum tempo da frequência escolar. Determinados empregos rudes e menos engravatados eram a meta para a maioria das crianças quando, ainda quase no berço, os pais os lançavam no mundo do trabalho nem que fosse, ao menos, tomar a vigilância dos irmãos mais novos. Aproveitamento de mão-de-obra infantil? Talvez. Eu prefiro chamar a isso colaboração na economia de família. Os que, então, assumiam tais encargos eram assim, já, os auxiliares de educação.
Todavia, mudaram-se os tempos. Presentemente, as vontades e os projectos transformam-se a cada instante.
Mas, voltando atrás, os outros, aqueles poucos, naturalmente os bafejados pela sorte ou destino, dos agregados familiares onde a agricultura ainda dava para forrar uns cobres, lá tinham acesso a mais umas letras para, depois, amealharem outras moedas e posições socialmente diversas.
Nos momentos que correm não se indagam ideias, propensões ou vocações. Onde houver uma porta de Escola Profissional ou de Universidade aberta, é sinal de aptidão e competência. A sociedade aguenta, de cara alegre e boca muda. São experiências que, até por vezes, podem sair certeiras. Duvidosamente, acrescento eu.
Congeminando, sem grandes pretensões, sobre circunstâncias passadas, recordo que ERA UMA VEZ…
O garoto andava, deveras, taciturno e numa melancolia que incomodava os que estivessem atentos às suas atitudes e gestos de enfado. Começou a isolar-se de tudo e de todos. Os irmãos mais velhos levavam a sua vida independente e, até já, ostentavam como seus alguns haveres pessoais. Estavam mais voltados para o exterior do lar. Ligavam-se aos companheiros com os quais combinavam as suas saídas e folguedos. O pai comunicava-se, à distância, com os amigos para discutirem, entre si, sobre o desporto, a política ou a crise de tudo e mais alguma coisa. A mãe dava conta às colegas e conhecidas do outro lado da aldeia acerca do quanto entendia da novela em exibição ou sabia do rumo da vida de qualquer outra pessoa conhecida que dera uma passada menos certa ou havia alcançado determinado benefício de causar inveja.
Todos numa distracção e confusão confrangedoras para o entendimento do menino.
Num  certo  momento  as lágrimas foram camarinhas silenciosas a deslizarem  ao longo  das suas faces  amarelecidas  pela dor calada mas eal. Decididamente, desta vez, o pai descobre-o, sentado no chão, num canto da casa. Até que, enfim, se resolve intrometer-se e inteirar-se da ocorrência.
 - Que há? Pergunta, num misto de ira, curiosidade e ameaça. - Que te falta? Que ou onde te dói?
Cheio de medo, mas com uma grande dose de coragem apazigua o pai, respondendo:
 - Vou fazer o meu pedido e espero que o levem muito a sério. Mesmo que ninguém me pergunte sobre isso, mas pelo que vejo à minha volta, quero, a partir de agora, ser um telemóvel.
Mal refeito do impacto momentâneo, e quase enxuto, o pai quis saber que ideia mirabolante ou peregrina estava subjacente a tão estranha e seca solicitação.
O rapazito, com a sua usada e costumada pacatez, esclarece o que sente bem no fundo de si mesmo.
 - É que, se eu for um telemóvel de verdade, como digo, estarei na ligação com todos. Ninguém jamais há-de passar ao meu lado sem me ligar nenhuma. O meu pai andará mais tempo comigo e dar-me-á a devida atenção, segura-me bem nas suas mãos e procura que eu não caia nem me danifique; ouve-me mais vezes; aprenderá que necessito de carga para me manter activo e vivo e crescer; escuta-me bem perto dos seus ouvidos, leva-me para todo o lado onde um homem pode estar e, até, guarda os meus segredos…
Também a minha mãe não me vai largar nunca em qualquer sítio e andará sempre preocupada sobre onde me encontro; arranja-me uma bolsinha e recolhe-me sem frio e longe dos perigos de qualquer contaminação; apresenta-me às pessoas suas amigas, recomenda as minhas coisas a meu pai, procura saber o que se passa comigo na Escola ou quando me achar com alguns companheiros meus; terá, portanto, uma ligação vital e obrigatória comigo.
Ainda, os meus irmãos mais velhos não vão sentir vergonha por me levarem às reuniões e encontros com os seus amigos e suas festas; vão sorrir-se com o que ouvem através de mim, contam as suas actividades, segredos e brincadeiras.
Transportam-me uns e outros bem pertinho do coração, naquele bolso que palpita logo que eu esteja a tocar, activo em gritos ou melodias modernas e mais e mais…
Depois de serem expostos todos estes e outros pormenores, pergunta o miúdo ao pai, à mãe e aos irmãos se estes argumentos não seriam suficientes para o olharem e o entenderem como pessoa e não apenas como um boneco articulado ou animado.
Quero eu, agora, acreditar que algo terá mudado a partir daquela revelação tão esclarecedora.
No explorar as grandes técnicas e descobertas, também a família deverá buscar, afanosamente, o que personaliza a todos e não o que divide e faz esquecer quem parece ser o mais débil e é relegado para um canto da encruzilhada da vida de crescimento, sem cuidado nem atenção. - Pe. MANUEL ARMANDO

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