O meu pisco da janela
O pronome possessivo meu não se pode aplicar propriamente ao pisco, porque ele em boa verdade não é meu. Comecei a vê-lo no peitoril da janela da cozinha, com certeza à procura de alimento, ou na situação de se ver ao espelho, sabe-se lá. Mas é próprio dos humanos tirar conclusões e como o inverno vai frio e chuvoso pensei que ele andaria com fome e comecei a levar-lhe umas migalhas, que ele avidamente comia. Agora, já está habituado e tornou-se numa rotina para ambos: eu levar-lhe migalhas e ele alimentar-se delas. No entanto, apareceu um concorrente: um pardalito matreiro, ligeiramente mais forte que o meu pisco e de bico mais grosso e rijo. E, como sabe que é mais forte, põe o pisquito a andar. Talvez porque ache o pisco mais frágil, foi a ele que adoptei, embora goste de ambos. Uma coisa tão simples como dois insignificantes passaritos são motivo suficiente para me fazer extrapolar. Como Augusto Gil, “vejo-os através da vidraça” e observo o instinto de conservação inerente a todo o ser vivo. Por isso, ainda não consegui aproximar-me dele para o alimentar sem que ele se espante. Gostava de poder saber o que se passa na pitada de cérebro da sua cabecita, mas não andarei longe da verdade se pensar que ele não tem confiança em mim. E isto faz-me pensar se ele teria sobrevivido se não fosse desconfiado. Agora, passando para o campo dos humanos, é frustrante ter de concluir que para sobreviver neste tipo de sociedade temos de ser desconfiados. A “lei do mais forte ou persistência do mais apto” da selecção natural, hoje já não se afirma pela força física, mas pela habilidade cerebral, que é, actualmente, o que torna o homem mais forte, tal como noutros tempos o “colt” na América, que pôs o fraco ao nível do forte. Muito têm pregado as religiões e os filósofos para que a humanidade seja uma coisa melhor, mas com resultados duvidosos. E se não estivermos atentos como o meu pisco, e apesar disso, estamos permanentemente sujeitos a ser pagos com “cheques sem cobertura”. Pisco, se conseguiste sobreviver como indivíduo e como espécie - e olhando para o teu físico não creio a tua evolução a nível da força, mas, sim, da esperteza... - aconselho-te que continues assim. Não te deixes iludir.
2003 vezes lido
|