Saber construir uma velhice bem sucedida...
O envelhecimento é hoje uma preocupação que abrange o decisor político ou o económico, as ciências médicas, a saúde pública, a segurança social, o mercado de trabalho, enfim a sociedade inteira. Isto porque as populações estão a envelhecer nos países industrializados sem a devida contrapartida do rejuvenescimento. Trata-se de um fenómeno de uma dimensão muitíssimo superior à das simples transformações do organismo, de natureza biológica ou psicológica, em função do tempo. As sociedades têm que responder a este premente desafio: saber dar mais qualidade ao tempo, mais qualidade de vida aos seniores, saber estabelecer vínculos estáveis entre as gerações. Para isso é preciso conhecer mais sobre a psicologia do envelhecimento. É esse o objectivo central de um precioso livro de divulgação, escrito por uma autoridade (“Psicologia do Envelhecimento”, por Roger Fontaine, Climepsi Editores).
Psicologia do envelhecimento
A psicologia do envelhecimento é, na prática, o contributo dos psicólogos para a gerontologia (ramo das ciências médicas que tem por objecto o estudo de todas as modificações morfológicas, fisiológicas, psicológicas e sociais decorrentes da acção do tempo no organismo, independentemente de qualquer fenómeno patológico. O livro, a todos os títulos útil e não só para quem trabalha em gerontologia e geriatria, aborda os seguintes domínios: o envelhecimento e as suas causas; o envelhecimento do sistema nervoso; métodos e correntes teóricas da psicologia do envelhecimento; o envelhecimento cognitivo (percepção, inteligência e memória); envelhecimento da personalidade; velhice bem sucedida e envelhecimento patológico; a questão do falecimento e do luto. O autor começa por recordar que envelhecimento não é um estado mas, sim, um processo de degradação progressiva e diferencial, já que não envelhecemos todos da mesma maneira nem o processo é simultâneo para todo o corpo e espírito. Uma velhice bem sucedida tem vários critérios, a saber: a longevidade, a saúde biológica, a saúde mental, a eficácia intelectual, a competência social, a conservação de autonomia e o bem estar subjectivo.
Idades diferentes
Comportamos três idades diferentes: a biológica, a social e a psicológica. A biológica está ligada ao envelhecimento orgânico; a social ao estatutos e aos hábitos da pessoa, relativamente aos outros; a psicológica é referente às competências comportamentais que a pessoa pode mobilizar em resposta às mudanças do ambiente. Sendo o sistema nervoso o órgão do pensamento, da inteligência e da afectividade, este especialista analisa os efeitos do envelhecimento, destacando a atrofia do cérebro (perda de peso e diminuição do volume), aparecimento de placas senis, entre outras manifestações. No envelhecimento há mudanças que são notórias, caso das alterações do gosto e do olfacto, a percepção da temperatura ou de equilíbrio e as perdas de audição como os efeitos no sistema visual. A memória, mesmo nas pessoas intelectualmente muito activas, conhece deterioração e não é fácil travar o declínio dos desempenhos. Igualmente o envelhecimento da personalidade implica estudos sobre esse conceito multiforme que é a nossa personalidade. Os diferentes autores chegam por vezes a conclusões contraditórias, independentemente de ser incontestável o envelhecimento da personalidade. Estamos chegados ao envelhecimento bem sucedido, que reúne três grandes categorias de condições: reduzir as causas que levam à perda de autonomia, a manter um elevado nível funcional nos planos cognitivo e físico e a conservar um bom empenhamento social com bem-estar subjectivo. A velhice óptima depende da plasticidade, que é um conceito referente às reservas que um indivíduo dispõe para optimizar o seu funcionamento. Esta plasticidade diminui ao envelhecer. O envelhecimento retarda-se no plano cognitivo através da manutenção da curiosidade (leituras, investigação, palavras cruzadas, etc.), actividade física, manutenção de autoconfiança e independência. O que nos remete para o exercício de uma reforma que não signifique uma retirada ou morte social mas, sim, integração noutras actividades, participando no seu bem-estar e no dos outros. É esta a tónica dominante dos problemas actuais, em prol do envelhecimento bem sucedido. A psicopatologia do envelhecimento tem a ver com a degradação da auto-estima, o declínio da adaptação da própria representação à realidade, a diminuição do domínio do ambiente, a perda de autonomia e o aparecimento de desequilíbrios na personalidade. Esta psicopatologia pode aparecer associada a estados depressivos, demências (do tipo Alzheimer) que acabam por se constituir como naufrágios lentos e inexoráveis da pessoa humana. Por último, a obra aborda a morte e o luto, remetendo-nos para a importante questão dos cuidados terminais.
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