Não vás, sapateiro, além da chinela!!!
Águeda é um concelho invulgarmente rico no que concerne a associações. Da assistência social à solidariedade, da cultura ao desporto, há de tudo! Porém, hoje, debruçamo-nos sobre a realidade das Bandas Filarmónicas como pioneiras, que foram, no associativismo concelhio, já lá vão quase dois séculos. Vem de longe a tradição das Bandas de Música em Águeda e, por elas, passaram muitas gerações sem, que se saiba, tenham atingido o patamar cimeiro na modalidade, ou sequer, um nível comparado ao das suas congéneres do Norte, de que são exemplo Fafe, Trofa, Pejão, Freamunde etc., etc. Mesmo assim, elegemos as Bandas que temos no concelho e outras que deixámos morrer, como responsáveis pela disseminação do associativismo em Águeda. Primeiro, na área cultural, depois na vertente desportiva e, mais recentemente, na solidariedade social! É certo que elas nem sempre estiveram ao nível de projecção que lhes é reconhecido nas últimas décadas e a explicação é simples: quando não há qualidade, não há projecção! É a velha história da pescadinha de rabo na boca. Qualidade e projecção são sempre sombra uma da outra, realidade de uma outra realidade, que ainda ninguém foi capaz de separar! Foi por terem percebido isto que dirigentes e músicos, no terceiro quartel do século XX, empreenderam em Águeda, esta cruzada tão marcante quanto surpreendente: colocar Águeda no mapa filarmónico português, foi a aposta! O nosso país tem, de norte a sul, história e fortes tradições em bandas de elevado nível artístico, mas o nosso concelho sempre tinha estado longe dessa realidade e as nossas bandas arrastavam-se (?) por uma terceira ou quarta “divisão” e no fim da tabela. Hoje, discutem palmo a palmo os lugares cimeiros da “premier league”, com resultados bem reconhecidos, dentro e fora do país, e não haverá vertente associativa em que as transformações rumo à qualidade, tenham sido tão profundas e evidentes: Mas isto, meu caro Eng.º Farias, não foi o milagre da Urgueira, foi o milagre das boas vontades! Se as bandas são hoje ícones representativos do nosso concelho, deve-se a dois factores essenciais. A saber: 1º. - Dedicação e muito sacrifício das populações, competência de monitores, músicos e maestros. 2º. - Abnegação dos mecenas, dos benfeitores e dos organismos públicos, com evidência da Câmara Municipal de Águeda que, apesar da crítica feita pelos detractores às bandas, foi decisiva nos resultados artísticos conseguidos nestas colectividades, a partir dos anos 80. Esta panóplia de boas vontades foi vital para a transformação operada. E o apoio público, da Câmara Municipal, continua a ser imprescindível para manter, e até aumentar, a qualidade artística porque, se essa qualidade baixar, o mais certo é acontecer o que aconteceu às Bandas de Belazaima, Aguada de Cima, Valongo do Vouga e Águeda. Se tivesse havido, nesse tempo, a sensibilidade que demonstrou o nosso poder autárquico nas últimas décadas, o mesmo altruísmo dos nossos mecenas e o mesmo sacrifício dos nossos músicos, essas Bandas ainda hoje existiriam. Será que alguém, com responsabilidades, deseja que, em pleno século XXI, aconteça o mesmo em Fermentelos, Castanheira, Casal d'Alvaro ou Travassô? Não queremos acreditar nisso, porque foi tomando consciência de quanto a música é importante na formação da nossa juventude, quiçá da nossa sociedade, que muitos se sacrificaram para que o processo tivesse êxito, e teve! Hoje, como em poucos concelhos, temos bandas que, pela sua qualidade artística, são dignas embaixadas culturais da nossa região. E as populações reconhecem o papel que teve a Câmara Municipal em torno do projecto, mas não esquecerão nem perdoarão a quem o atraiçoar. E quando a hora do baile chegar, dançar-se-á conforme a música tocar, porque o povo tem ritmo, não é estúpido, e retém uma incomensurável memória. Alguns responsáveis culturais não têm consciência de que, para uma banda se apresentar em público, não basta pôr os braços no ar, ter os pés leves e abanar o “capacete”. Por isso, não devem comparar o que é incomparável sob pena de cometerem erros de avaliação. Quem fala de subsídios exagerados às bandas não sabe o que elas sofrem, porque nem sequer sabem que elas acarretam consigo um camião de instrumentos de custo superior a 250.000 euros, renovados constantemente? Os entendidos em folclore, saberão que cada serviço de uma banda obriga a uma deslocação de, às vezes, centenas de quilómetros com partidas pela madrugada e regresso 24 horas depois com despesas de alimentação a cargo dos músicos? Saberão os críticos que, por manifesta incapacidade económica das bandas, alguns pais se endividam para comprar os instrumentos aos seus filhos? Acha exagerado que os músicos recebam, não milhares de euros, como diz, mas uma verba que amenize o custo das despesas em serviço? Não ver isto seria manifesta cegueira! Desvalorizá-lo, uma enormidade! Ignorá-lo, uma injustiça! Desconhecê-lo, demasiada ignorância! Se o analista dos subsídios, com responsabilidades associativas, olhasse com isenção para a especificidade própria de cada associação, facilmente verificaria que o músico, para o ser e desempenhar cabalmente o seu papel, tem que perder muito tempo e queimar as pestanas com milhares de horas de estudo. Horas roubadas aos trabalhos caseiros e profissionais, ao apoio familiar, ao lazer e ao descanso. E não há fins-de-semana para namoro ou para a praia! Por tudo isso, os músicos das bandas são credores de muito mais que uma estátua. Estátua que já existe, e bem, em honra do folclore. Mas…, logo na Mourisca, vá-se lá saber porquê?! Meu caro Farias: Tocar música, e tocar bem, não se faz só por prazer! Faz-se com muita dedicação e sacrifício e com gastos que um especialista em folclore pode ter dificuldade em entender. Por isso, e com a devida vénia, aconselho- -o a não avaliar o fato dos outros, fique-se pelo seu riscado ou, como diria o pintor ao vizinho sapateiro, quando este criticava a sua arte: “Não vás, sapateiro, além da chinela!”.
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