Ou... de pequenino...
Era uma vez... esta expressão tem sempre a força de calar a atenção das crianças que, logo ao ouvi-la, arrega lam os olhos como que para libertar a mente, tornando-a apta a beber a mensagem que vai transmitir-se. Mas, também, as próprias crianças são sujeito e motivo de qualquer história. Na verdade, era uma vez... O menino, de cabelos aos caracóis louros, cara rechonchuda, pele rosada e lisa, tinha uns olhos pretos de azeitona e sempre curiosos e atentos. Em cada momento mirava o agir dos adultos, sobretudo da mãe que era a sua ídola. Sentia-se extremamente seguro junto dela e os seus pequenos actos eram miniaturas daquilo que observava nela. Com o pai o seu relacionamento era um pouco menos intenso. Pudera ! o pai passava mais tempo fora porque no trabalho ou em viagem. Os irmãos iam-se distanciando da casa por causa das aulas e dos divertimentos próprios da juventude destes dias. Os momentos de reunião familiar tornavam-se, cada vez mais escassos, e, quando aconteciam, eram alterados pelos programas televisivos que preocupavam a atenção dos mais velhos. O nosso menino poderia ver os seus programas infantis de bonecada mas nos intervalos, enquanto os outros não se encontravam em casa e a mãe se ocupava nas pequenas tarefas caseiras. Todavia, tais atitudes do miúdo não o distraíam das suas dúvidas e dos seus interesses pessoais. Quando alguma coisa importante ou problema o incomodavam, logo corria até à mãe para que ela lhe satisfizesse a sua inocente ignorância. E nem todas as respostas o enchiam porque dadas com alguma ligeireza. Portanto, passados minutos, estava, de novo, a perguntar por explicações mais concretas e melhor pensadas. Isso não incomodava a mãe, muito pelo contrário, porque lhe oferecia a ocasião para cismar e concluir que uma resposta fornecida à curiosidade infantil não pode nunca ser feita por evasivas que nada concretizam. De vez em quando ela aproveitava um pequeno livrito de histórias que lia e explicava. A criança passou a saber de cor os episódios contados e recontados, vezes após vezes. E até corrigia quando alguma explicação fugia um pouco do que havia sido dito na vez anterior. Os seus olhos brilhavam enquanto corrigia os pequenos erros explicativos. Já muito sabia e, por isso, não tolerava qualquer desvio narrativo. Não se cansava da história já sabida e conhecida, mas sempre transportadora de algo novo. Sobretudo, era sempre momento e razão para ter junto de si alguém, a sua mãe. Sentia-se amparado porque confiava naquela que lhe dispensava a atenção necessária. E assim se tomava, por seu turno, dócil e grato. Até gostava imenso de colaborar nas tarefas maternas de casa. Uma espécie de experiência de Justiça e reciprocidade. E era um encanto vê-lo crescer num grande equilíbrio psicológico e emocional. Depois de um dia intenso nas lides simples infantis, o banhito era reparador e repousante. Mas, antes que adormecesse entre os fofinhos cobertores da sua camita, a mãe debruçava-se sobre o seu filhito, endireitava-lhe as mâozitas e ia-lhe ditando, com calma e amor, umas frases de oração ao Jesus, a Maria e ao Anjinho da Guarda. E, assim, na serenidade o menino era enleado nos braços de Morfeu, enquanto a mãe se despedia com mais um beijo ternurento até ao outro amanhecer. Era este o ritual de todos os dias. E o menino foi crescendo em bons costumes. Quando já grande, ainda sentia a saudade e necessidade de chamar sua mãe e pedir-lhe que o ensinasse e ajudasse a rezar. Era uma vez um garoto... uma mulher... uma família... Não sei se estes hábitos continuaram a ser respeitados e seguidos no desenrolar da vida adulta. Mas, agora e neste tempo, cada um poderá desvendar este enigma em si mesmo ou na família. Também seremos nós, hoje, a resposta acerca da continuação ou perda dos bons costumes familiares de antigamente.
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