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As fumaças de Sócrates!

por António Silva em Maio 20,2008

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Já todos sabíamos que há portugueses de primeira e de segunda. Aliás, desde que o homem começou a fazer história que a humanidade, toda a humanidade, de forma mais suave ou violenta, mais subtil ou descarada, esteve sempre dividida por classes atirando tantas vezes, para o ostracismo, seres tão humanos quanto nós, excluindo-os e privando-os dos mais elementares direitos até fazer deles párias da Sociedade.
E esse sentimento de poder e domínio sobre o outro ficou de tal forma arreigado no género humano que, ainda hoje e não raras vezes, o mais pacato e vulgar cidadão, assumido liberal e democrata, plebeu ou aristocrata, quando chegado ao poder, num ápice se transforma no ditador, quando não no déspota; no opressor, quando não no carrasco.
As diferenças sempre existirão, não só nos humanos, mas em todos os seres vivos, pois  fazem parte de essência da vida e a lei da genética que consubstancia as diferenças nunca será muito modificada, para que o mundo continue a ser belo, na diversidade.
Mas, se eliminar o essencial da natureza - todos diferentes... - não passa de utopia, que haja ao menos a decência de, no respeito e cumprimento da lei, sermos todos iguais.
O tempo de se justificarem as escapadelas com a velha máxima de, olha para o que eu digo não olhes para o que eu faço, não se encaixa no mundo moderno que todos temos obrigação de ajudar a construir e, para lá chegar, é necessário existirem luzeiros que, como faróis, nos apontem a orientação correcta, mas principalmente, nos sirvam de exemplo.
Ora, pelas notícias que fizeram manchete em quase todos os jornais acerca da viagem ministerial à Venezuela, encabeçada por Sócrates, tivemos um péssimo exemplo dado pelo Primeiro-Ministro que, numa atitude tão desrespeitosa da lei, quanto ingénua e não sei se alguma coisa mais, fumou dentro do avião que transportava a comitiva.
Então a lei é só para o Zé respeitar?
Onde estará o critério? Quando o poder se junta ao dinheiro ficará com o direito de se colocar acima, ou fora da lei?
Fez-se um escarcéu que fez tremer a ASAE, quando o seu director foi apanhado a fumar um charuto na passagem de ano, no Casino, e logo no dia da entrada em vigor das restrições ao fumo, tendo os críticos mais acérrimos razão para o protesto, não pela gravidade do acto, mas por se tratar de o prevaricador ser o super-polícia que tem por missão principal fazer cumprir a lei. Logo, era de esperar que ele fosse um bom exemplo. No caso, foi um mau exemplo, mas não tão grande quanto o exemplo do Primeiro-Ministro, que caiu na tentação de se colocar acima da lei, como quase todos os poderosos, refira-se, e fumar dentro de um avião, cometendo um acto proíbido por leis internacionais e em vigor muitos anos antes das limitações ao fumo em Portugal. Isto toca os limites da decência!
Entretanto, o porta-voz da TAP quer justificar a infracção com o argumento de que era um voo fretado. E nós perguntamos se a lei tem duas medidas ou se, apenas por ser um voo fretado, já não existem os malefícios do tabaco e o perigo do fumo? E perguntamos mais: qual vai ser a atitude da TAP em relação aos voos charter, porque também eles são voos fretados? E gostaríamos ainda de saber se alguém tem autoridade para ultrapassar a lei?
Ao porta voz da TAP mais valeria ter ficado calado, porque as suas arengas não passam disso mesmo, arengas, no sentido de desvalorizar e branquear um acto reprovável, não pelos malefícios que causou, mas pelo mau exemplo que deu, o Homem que defendeu e assinou a lei das restrições ao uso do tabaco. E lei é lei!
Isto não é só uma palhaçada nem uma ingénua negligência, é a propensão de alguns se fazerem de marajás enquanto empurram a plebe para as fraldas da obediência e da miséria.
 É a tentação dos mandões se colocarem acima da lei. É a prova real de que, em relação às leis, há, ou pretendem que haja, portugueses de primeira - eles... -, e portugueses de segunda - que somos nós, todos os outros.
Viajámos em algumas missões empresariais na companhia do Dr. Jorge Sampaio e, pela sua postura, ficámos mais conscientes de quão grandes são os humildes ,mesmo quando o seu estatuto é o de Presidente da República.
Oxalá ele, um dia destes, abra uma escola para leccionar as boas maneiras aos seus pupilos de jornada.
Até lá vamos vivendo e sofrendo com o que temos.

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